em portugal já é natal. não o natal das quinquilharias, das luzinhas, dos papéis pintados e dos laçarotes, que alguns de nós, à semelhança de frei fernando ventura, repudiamos.
no passado fim-de-semana, data que para os cristãos marca o início do advento (período de preparação para o natal), começámos a ver os sinais da solidariedade que o menino deus feito homem veio ensinar aos povos.
em portugal, uma mulher aparentemente frágil, formada em economia, pertencente a uma família de classe média-alta, sem problemas financeiros, quando decidiu deixar de trabalhar fora de casa para ajudar a crescer os cinco filhos percebeu que o tempo estica na medida da nossa generosidade.
militante desde cedo da luta contra a pobreza de bens e afectos, foi inscrever-se como voluntária no banco alimentar contra a fome.
depressa o seu espírito de liderança a guindou à direcção. agora, com a existência de 28 bancos alimentares espalhados por todo o país, lidera a federação na qual se organizaram.
mas nunca deixou de mexer nos produtos alimentares que são doados.
luta directamente contra o desperdício. mobiliza diariamente as grandes superfícies para que não deitem ao lixo os produtos frescos, mas pouco vistosos, que as leis do mercado e da concorrência não permitem ter expostos.
este ano, quando o país atravessa a maior crise económica ou financeira pós-democracia, quando o desemprego atira para a pobreza dezenas de milhares de famílias até há pouco com vidas mais ou menos confortáveis (e projectos que levariam os seus filhos a sonhar com um futuro luminoso), quando tudo parece desmoronar-se, ela e as equipas que com ela trabalham desafiaram-nos a ultrapassar todos os montantes de géneros até hoje obtidos.
desafiaram-nos e nós respondemos. os portugueses, mesmo os muito pobres, participaram neste milagre da multiplicação dos pães.
os que foram aos supermercados no passado fim-de-semana, ou olharam as imagens que as televisões transmitiram do grande armazém de alcântara, terão ficado espantados com a baixa idade de alguns dos voluntários – que, sorridentes, nos davam sacos vazios à entrada, e, igualmente sorridentes, os recolhiam muito ou pouco cheios à saída.
eram crianças. crianças a aprender com adultos que se pode mudar o mundo com pequenos gestos. e que essa mudança depende de cada um de nós, tenha a idade que tiver.
neste caminho para o natal, isabel jonet e os milhares que com ela trabalham absolvem as catedrais do consumo, demonstrando como a partilha pode mudar a essência das coisas.
e, se treinarmos o suficiente, ainda nos habituamos, nos transformamos em corredores de fundo – e descobrimos que pode ser natal todos os dias.
de uma longa entrevista que esta mulher deu ao jornal de notícias respiguei uma frase que me deixou a pensar: «sócrates luta bem, não sei é se luta pela causa certa».
dez pessoas com dez equipas como as desta mulher aparentemente frágil talvez acabassem com a crise em seis anos.
