um dia destes reconciliei-me com o televisor. por pouco tempo, mas reconciliei-me.
sou viciada em notícias há mais de 30 anos, os amigos chamam-me masoquista, mas não sou capaz de me libertar. na verdade, não quero libertar-me, é uma dependência como qualquer outra, tem efeitos secundários, desgasta – mas permite-nos de vez em quando apanhar uma onda que só com muita perseverança e atenção se intui que vai formar-se.
habitualmente vejo o jornal das nove. os convidados têm tempo para pensar no que respondem, e o mário crespo está habitualmente bem informado sobre o que comenta. aqueles 20 minutos raramente me deixam indiferente.
era entrevistado o presidente da conferência episcopal – d. jorge ortiga, arcebispo de braga.
o preconceito de muitos portugueses – e o meu também– vai no sentido de que, a norte do porto, a igreja católica se esgota nas romarias de verão e nos casamentos dos emigrantes em agosto. durante o resto do ano são velhinhas a rezar o terço durante a missa. embora soubesse que este era um preconceito, não conseguia eximir-me à sua influência.
ora o arcebispo de braga falou como um líder. bem educado, comedido, mas líder. denunciou os males que provocam o sofrimento dos mais frágeis dos nossos concidadãos, religiosos ou não. apresentou, como qualquer outro líder, propostas e realizações que, olhos nos olhos, nos fazem acreditar que podemos minorar o sofrimento dos que não têm voz – sem estarmos sempre a apelar ao estado. e, como qualquer líder no momento em que vivemos, não poupou o estado.
muita gente sabe que não gosto de bispos, que se deixam tratar por dom e se vestem de marquesas – como disse no concílio do vaticano ii o arcebispo de paris.
talvez por isso (ou porque somos da mesma ‘família’), quando os vejo desempenhar o seu papel de pastores alegro-me por dentro.
era segunda-feira, dia do prós e contras, programa que já viveu o seu apogeu. deixei de ser telespectadora assídua depois de o ver transformado num ringue de boxe, com aplausos e apupos, como no ano passado durante a luta dos professores.
para esta semana estava anunciado algo que me pareceu um modelo que podia vir a ser diferente. e foi. quatro convidados, entre as melhores cabeças que ainda pensam e agem livremente em portugal: adriano moreira, antónio barreto, barata moura e o cardeal patriarca de lisboa.
o leque ideológico estava seriamente representado por homens de gerações diferentes que estudam todos os dias e agem sempre que a acção lhes parece ser a resposta adequada ao pensamento. homens que, propondo soluções diferentes, nos demonstraram que a diferença enriquece sempre a qualidade das soluções, sem estilhaçar o que resta da magra herança dos avós.
nunca se falou no nome de nenhum político menor, nunca se escondeu o que piorou para os habitantes do hemisfério norte, que teima em não valorizar o que entretanto melhorou para os habitantes do hemisfério sul.
a terminar, adriano moreira, o velho sábio, deixou um recado: «vão continuar a existir eleições. não se abstenham, não votem em branco. da nossa participação reflectida depende muita da mudança que desejamos a nível nacional».
pela minha parte, resta-me agradecer a qualidade do debate e apelar a uma luta cerrada contra as várias pressões exercidas sobre a comunicação social.
vivi no tempo da censura – e alguns de nós começam a dar-se conta da existência de fantasmas semelhantes ao lápis azul (que era vermelho), travestido do politicamente correcto.
