Pôr um novelo na gaiola e esperar que cante

Aqueles romenos venderam tudo o que possuíam e, quais José e Maria, partiram para este ‘Egipto’ de prosperidade.

Parecia Gaza ou o Afeganistão depois de um bombardeamento.

A banalização dos cenários de destruição e sofrimento humano, com homens, mulheres e crianças perdidos no meio dos destroços, como se fossem lixo humano, tornou-se parte do nosso quotidiano. E de tal forma nos emociona que por vezes temos de desviar o olhar, buscando outro foco de atenção.

Num outro dia, um cenário semelhante ocupava o ecrã do televisor, sintonizado na SIC.

Mas agora não era nenhuma guerra distante. Nem o resultado de um qualquer tsunami. Era aqui ao lado, no Ginjal, mesmo à beira do Tejo e a 20 metros do novo submarino, no concelho de Almada, que tem uma câmara dirigida há muitos anos por uma mulher comunista. Todos sabemos como os comunistas costumam ser bons a dirigir autarquias. Mas no melhor pano cai a nódoa.

Prometiam uma reportagem pós-telejornal. Esperei. Valeu a pena.

Um grande grupo de famílias romenas vivia naquele inferno há cerca de dois meses.

Vítimas – como muitas outras – das redes de traficantes de seres humanos, estes romenos venderam os míseros haveres que possuíam na sua terra e, quais José e Maria, partiram para este ‘Egipto’ de segurança e prosperidade.

Se a caminhada foi longa e dura, a chegada foi um pesadelo.

O ‘patrão’ tinha desaparecido, não havia trabalho, nem sol, nem pão. Não havia nada.

As autoridades foram-nos encurralando naquele gueto tenebroso, até que uma jornalista viu e anunciou. E uso esta palavra porque ‘anúncio’ pressupõe mais que denúncia, pressupõe: que a palavra fez eco no coração de alguém.

Desta vez, o eco encontrou ressonância na casa do Luís Figueiredo – cujos filhos, depois do terramoto do Haiti, começaram a prestar mais atenção ao sofrimento dos outros. E mais uma vez perguntaram ao pai: «e nós, não fazemos nada?».

O pai pôs-se a caminho, ao encontro dos outros.

Eles só queriam regressar à pátria. Mas, no estado em que se encontravam, já não tinham energia para bater a mais nenhuma porta. E a humilhação de regressarem depois de um insucesso total paralisava-os.

Entretanto, nas redondezas, outros – quase tão pobres como eles – enxotavam-nos, como se de leprosos bíblicos se tratassem.

Em três dias feriados o Luís Figueiredo, que não conheço, juntou vontades, interpelou e fez mexer instituições, deu de comer aos famintos, vestiu os nus. Com o apoio de uma empresa de camionagem, assegurou a viagem até Madrid. Com a ajuda de dois ou três amigos, assegurou o pagamento do resto do caminho até à Roménia. Devem ter chegado já.

Neste princípio de ano todas as caras mediáticas de bom senso nos dizem para falar de esperança e não de crise. Já fiz a minha parte.

Eu – e com certeza muitos outros – gostaria de ter um país governado por homens e mulheres com o perfil do Luís Figueiredo.

E isso só depende de nós. Vivemos em democracia. Votar é o primeiro passo.

«A esperança não é pôr um novelo de lã dentro de uma gaiola e esperar que cante».

catalinapestana@gmail.com