Corações ao telefone

Novo sistema de monitorização cardíaca transmite informação a médicos à distância. Até pela net

e se um doente não precisasse de ir à consulta para que o seu estado de saúde fosse avaliado por um médico? hoje, os cardiologistas podem saber o que se passa com o coração, bastando colocar uma palavra-passe na internet.

mário martins, de 50 anos, tem uma insuficiência cardíaca, que durante uma década esteve controlada. há cerca de dois anos apanhou um susto quando o seu médico lhe disse que tinha piorado, falando até da necessidade de um transplante cardíaco. mas a alternativa acabou por ser outra. «aconselharam-me um aparelho que seria implantado perto do meu coração em vez do transplante», conta ao sol.

hoje, tem o que se chama de uma vida ‘normal’: «faço tudo. melhorei a 1000%!». e sente-se confiante por ser monitorizado com a ajuda de um aparelho que actua até como desfibrilhador.

este sistema de monitorização – latitude – é composto por um comunicador que recolhe os dados do aparelho e de sensores externos, como uma balança e um medidor de pressão arterial, essenciais na vida de um doente cardíaco. depois, esses dados são transmitidos, por telefone, para um servidor que grava a informação e a disponibiliza aos cardiologistas.

mário martins foi das primeiras pessoas em portugal a dispor desta tecnologia; as suas consultas, por exemplo, passaram a ser anuais, quando dantes chegara a ser reanimado no hospital «por três vezes».

o cardiologista manuel nogueira da silva considera que há uma optimização do tempo: «não quer dizer que não haja consulta porque alguém tem que analisar os dados que o aparelho registou, só que para isso o doente não precisa de se deslocar». nalguns casos essa análise é feita diariamente.

além da situação clínica do doente, o latitude informa também sobre o próprio estado do aparelho – se tem pouca carga ou se há algum problema nas funções do mecanismo.

quando o doente tem de sofrer um choque – através da função automática do desfibrilhador, no caso de uma arritmia mais grave –, o médico recebe um alerta vermelho. o que lhe permite agir mais rapidamente.

em 2009 foram implantados 120 aparelhos em portugal, sendo que a média europeia corresponde a 270 implantes por cada milhão de habitantes. e, nos estados unidos, o número sobe para 600/um milhão.

comparticipado pelo serviço nacional de saúde, chegou agora também aos açores. mas nem todos os doentes com insuficiência cardíaca são bons candidatos.

calcula-se que há 20% de pessoas em risco de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida. na europa, morrem por ano, devido a esta patologia, perto de 300 mil pessoas.

joana.andrade@sol.pt