seja qual for o resultado das urnas no próximo domingo, nós já ganhámos.
este ‘nós’ são todos aqueles que, embora sabendo que não existe democracia sem partidos, também sabem que os partidos não esgotam todas as potencialidades da democracia.
este ‘nós’ são todos aqueles que aprenderam à sua custa que os epítetos de ‘esquerda’ e ‘direita’ pertencem ao século passado – e querem participar na construção do futuro.
este ‘nós’ são todos aqueles que foram confrontados na sua vida profissional com ultrapassagens pela direita (sabendo que pela direita não se ultrapassa), por aqueles que trazem no bolso ou na carteira um livre trânsito partidário – seja qual for o partido que ocupa democraticamente a gestão da coisa pública.
este ‘nós’ são todos aqueles que decidiram tratar da sua vida privada e nem sequer sabem exactamente a data das eleições. e, quando sabem, fazem por esquecer. são os abstencionistas crónicos.
este ‘nós’ são todos aqueles que desiludidos com a corrupção, com a injustiça em forma de lei, com o enriquecimento ilícito de alguns políticos, com as crises que são sempre pagas pelos que trabalham por conta de outrem, desistem de aprofundar a democracia – como chamava maria de lourdes pintasilgo a esta luta, à qual não podemos dar tréguas.
não sabemos qual será o resultado numérico das presidenciais de 23 de janeiro. mas sabemos já hoje que, seja ele qual for, pela primeira vez em portugal foi possível fazer emergir um candidato para todos os portugueses, sem ligação a uma qualquer organização partidária, sem o seu suporte ou financiamento.
e, tendo que ultrapassar uma lei eleitoral concebida noutros tempos, quando isto era impensável – a qual determina que um cidadão que se candidate a presidente da república é obrigado a pagar iva em todos os serviços que compra (ao contrário dos partidos, que estão dispensados desse pagamento).
a partir destas eleições, todos ficarão um bocadinho mais livres, um pouco mais senhores dos seus deveres e dos seus direitos dentro da coisa pública.
cada um de nós aprendeu o poder que pode ter a sociedade civil organizada.
mesmo com o boicote escandaloso que alguns órgãos de comunicação social fizeram ao candidato desta maioria, ficámos a saber que é possível fazer da democracia de alguns uma democracia de todos.
«o caminho faz-se a caminhar». os que iniciaram agora este caminho sabem para que lado fica o norte, e que o norte é tão longe que tem de ser procurado a vida toda.
muitos destes ‘nós’ cantarão pelo caminho:
o homem que caminha não pára, não dorme
segue levando pátrias nos braços
só ele sabe, só ele cala
no colo que embala
o homem que caminha não corre, não mente
segue levando rumos em braços
só ele sabe, só ele cala
no colo que embala
há muitos homens num só
mulheres também, os homens num só
de quem é este caminho?
é nosso
de quem é este caminho?
é nosso
de quem é este caminho?
é nosso
o homem que caminha não quebra, não teme
não tira, não fere
luta levando homens em braços
só ele pode, só ele pode.
no colo que é nosso…*
*maria joão ceia
