A vulgarização da violência

Um adolescente de 16 anos, aparentemente sereno, matou o pai à catanada. Porquê? E que relação há com o crime do Hotel Continental?

as capas coloridas das revistas expostas semanalmente nos quiosques necessitam ter um suporte suficientemente convincente – de traição, drama ou sexo – para que, depois de um olhar de relance, o influenciável cidadão decida comprar uma inutilidade em tempo de crise.

falo, obviamente, das chamadas revistas light – ou, portuguesmente falando, cor-de-rosa.

quanto mais a crise se faz sentir nos bolsos dos cidadãos, maior é o despudor com que se fala da vida sofrida, ou destruída, de alguém.

até agora, esses espaços de comunicação social estavam mais ou menos identificados e só comprava quem queria. com o adensar do caos socio-económico, o sensacionalismo despudorado começou a invadir os órgãos de comunicação até aqui considerados de referência, sendo difícil distinguir hoje em dia se as imagens coloridas que estamos a ver pertencem a um telejornal de um qualquer canal de televisão ou à capa do último número da revista lux.

depois da overdose do chamado ‘caso casa pia’, que durou anos, generalizou-se o despudor desta dita liberdade de imprensa.

o estado sufoca economicamente um ou outro órgão de comunicação que se atreve a ajudar os cidadãos a interrogar-se sobre a nossa forma de estar colectivamente na vida. os restantes, para sobreviverem, têm de repetir até à exaustão frases e imagens equivalentes às histórias de cordel que, no princípio do século xx, os deficientes vendiam pelas ruas, apregoando: «é a história da desgraçadinha que andava no gamanço porque tinha o pai tuberculoso, coitadinha!».

estamos no início da segunda década do século xxi – e o que mudou apenas foi a velocidade à qual a informação chega a todos.

depois de três semanas de bombardeamentos mediáticos sobre o crime perpetrado em nova iorque protagonizado por dois portugueses (e que alguns americanos dizem não ter importância, por se tratar de um crime entre hispânicos), a notícia de outro assassínio, roçando também um comportamento patológico, ocorre numa aldeia do norte de portugal.

um adolescente de 16 anos, aparentemente sereno, bom aluno, pertencente a uma família considerada pelos vizinhos como completamente equilibrada, mata o pai à catanada e percorre 20 quilómetros a pé, descalço, para se entregar no posto mais próximo da guarda nacional republicana.

ninguém na escola, ou na aldeia, se dera conta de que houvesse algum problema latente entre pai e filho. quanto à mãe, que começa a ter a lucidez obstruída por uma doença crónica, ninguém sabe se alguma vez se deu conta de algo estranho.

a notícia do adolescente de uma aldeia do norte que, num acto temporário de loucura, matou o pai desapareceu felizmente do quotidiano das notícias. pelo contrário, somos diariamente informados dos detalhes mais sórdidos do que se terá passado naquele quarto do hotel continental, a muitos milhares de quilómetros de distância.

ninguém saberá nunca se existe alguma relação de causa e efeito entre os dois acontecimentos. a mim parece-me que, em ambos os crimes, só existiram vítimas. parece-me mais: que, em parte, todos somos co-responsáveis por histórias deste tipo.

a justiça é diferente para pobres e para ricos.

as crianças e os adolescentes raramente têm adultos de referência com quem comentar os acontecimentos brutais que lhes chegam através de muitos canais – e, mais ou menos confusos, em tempos de crise interior, identificam-se com um dos lados.

e os adultos, na sua maior parte, não são referência forte que sirva para ajudar a crescer ninguém.

e os que são acham que o exercício do poder lhes sujará as mãos.

é urgente transformar os nós em laços.

catalinapestana@gmail.com