discretamente, quase em segredo, o primeiro governador-civil de ponta delgada depois da revolução de 1974 deixou os seus amigos mais órfãos.
órfãos de valores, do calor na discussão em defesa desses valores, de solidariedade activa, de coragem e de beleza. era tão belo como uma estátua grega, pelo menos aos meus olhos.
segundo filho de um aristocrata açoriano, as suas escolhas deram-lhe uma companheira para toda a vida, plebeia, e o título que ambos partilhavam: ‘marqueses vermelhos’.
nos açores, como no continente, antes de 1974, quem questionasse um milímetro que fosse a política do estado novo tinha o epíteto de ‘vermelho’. alguns – como o antónio borges coutinho – não se importavam nada com isso e percorriam o seu caminho, discutindo os direitos dos humanos até que a voz lhos permitisse.
a última vez que estive com ele foi no centro nacional de cultura, no fim do verão passado, quando um grupo se juntou para organizar alguns ‘sinais’ para os mais jovens não esquecerem que, 40 anos antes, fora necessário criar em portugal a comissão nacional de socorro aos presos políticos (comissão que só teve existência legal porque integrava a palavra ‘socorro’). nesse encontro o antónio pareceu-me estar bem, e era ainda um velho muito bonito.
conheci-o também há 40 anos, a ele e à conceição.
a conceição foi para os da minha geração que tiveram o privilégio de privar com ela o sinal claro de que a luta de classes é um conceito histórico, circunstancial e datado, que só condiciona determinantemente os humanos que não têm as ideias bem arrumadas.
em dezembro de 1972 teve lugar na guarda um julgamento político onde estavam os advogados do costume, vários arguidos (acusados de ajudarem a fugir pela fronteira espanhola perseguidos políticos) e algumas das testemunhas do costume (que poderiam ser arguidos no julgamento seguinte).
alguns dos acusados estavam presos em caxias – e os pides que os guardavam eram tantos que pareciam um batalhão.
a polícia política remetera o julgamento para o tribunal cível, porque a pena preconizada para os engajadores (que cobravam somas elevadas aos candidatos a emigrantes) era mais pesada do que aquela que os tribunais plenários tinham conseguido inventar para quem ajudasse um amigo a fugir às garras da pide.
estava muito frio. na véspera do julgamento, madrugada alta, o victor wengorovious, atrasado como sempre, chegou quando a estratégia da defesa estava toda definida e disse qualquer coisa parecido com isto: «é tudo ao contrário: as testemunhas têm de dizer que os gajos são ainda mais comprometidos politicamente do que o que são na verdade. não é preciso inventar nada, cada um diz o que sabe, e deve chegar para os absolver. este tribunal não tem competência para julgar crimes políticos».
o victor disse, e o juiz concordou. já noite – era dezembro e anoitecia cedo –, terminada a audiência, o meretíssimo disse: «são todos de lisboa. se quiserem esperar duas ou três horas, eu vou redigir o acórdão e torno-o público ainda hoje». todas as partes concordaram.
a ‘marquesa vermelha’ saiu e voltou num ápice, com um enorme pão de centeio e um queijo da serra. partiu o pão à mão – e, com uma côdea a fazer de colher, repartiu o queijo perante o olhar furioso dos pides.
hoje, ao recordar aquela ceia e a ansiedade das horas que se lhe seguiram, lembro-me de outra, onde o queijo foi substituído por vinho.
o juiz absolveu os militantes das liberdades.
o antónio tinha ficado em lisboa, a congeminar novas formas de fazer de portugal um país mais livre.
a hipótese de um golpe de estado estava em fase de incubação.
na madrugada de 24 de abril de 1974, o ‘marquês vermelho’ era um dos poucos civis envolvidos. a conceição ficou sozinha com o transístor ligado, enroscada no canto do sofá frente ao aquário – e foi ela que esperou.
porque algumas vidas só fazem sentido pleno numa vida outra, o antónio – se ela existir – estará lá com outros justos.
