passou quase um mês sobre as eleições presidenciais. ora:
– arrumadas as bandeiras, os cachecóis e as papoilas de feltro ou de papel, que centenas de mãos fabricaram por esse país fora;
– preparadas as contas para entregar no tempo certo às entidades oficiais, que as exigem;
– dado um suspiro de alívio, porque não se vai ficar a dever nada a ninguém;
– descansados corpos e espíritos de quem percorreu o país de norte a sul durante dez meses, de quem se atreveu a arriscar tudo para nos ajudar a perceber que, em democracia, os partidos são muito importantes mas não têm o monopólio da vida política.
feito tudo isto, é tempo de pegar na trouxa e zarpar.
os núcleos regionais de homens e mulheres pela cidadania começam a sentir falta do trabalho que durante quase um ano preenchia os seus tempos livres e entrava pelas suas horas de sono dentro. porque um homem credível lhes disse que era possível mudar o status quo lamacento – e participar de corpo inteiro (e por direito próprio) na reconstrução deste país que é também nosso.
nós, os órfãos de partidos moribundos, somos aproximadamente quinhentos mil. meio milhão de votos expressos daqueles que puderam votar, apesar da incompetência de alguns e da irresponsabilidade política de outros.
e agora, professor?
não se tem saudades daquilo que nunca se possuiu, ou nem sequer se conheceu. mas a experiência mostrou-nos do que é capaz um punhado de cidadãos organizados, com uma liderança forte e impoluta. vimos juntos a sede de transparência, de verdade, de solidariedade, que invade portugal de lés-a-lés.
ao liderar esse descontentamento, ao dar sinal de que, com métodos e pessoas diferentes, se vai construindo a diferença, esse homem criou com o nosso país um compromisso. e os compromissos são para cumprir.
a sua vida mostra que nunca virou costas a um desafio. este é agora o seu: não desiludir meio milhão de portugueses que arregaçaram as mangas e partiram com ele à procura de novas formas de vida a construir – para cada um de nós e para os restantes concidadãos que, conformados, preferiram não trocar o certo pelo duvidoso.
é este tempo determinante e crítico que me leva a escrever-lhe, bem como a todos os outros que fizeram caminho consigo.
lembro-me de o ouvir dizer, durante a campanha, que era apenas dono do seu voto. que, em caso de haver segunda volta entre outros candidatos, cada um de nós votaria segundo a sua consciência. concordei em absoluto, como em quase tudo.
agora o problema é outro. não se trata de votar em consciência – trata-se de gerir e potenciar a energia generosa de cerca de meio milhão de pessoas que esperam, impacientes, liderança. esperam liderança para pôr em prática aquilo que lhes foi proposto, aquilo a que aderiram quando foram para a rua, aquilo a que os partidos e o estado continuam a não saber dar respostas eficazes.
a diferença entre um chefe e um líder é trágica.
um líder não se pode demitir – pode ir liderar para o outro lado do mundo mas será sempre um líder.
no meu entender – e no de muitos que falam comigo – a ami já não pode requerer toda a sua atenção.
se quiser, um dia será presidente da república portuguesa. mas, para que tal aconteça, as novas práticas políticas têm de começar já.
nós, os tais quinhentos mil, estamos à espera.
catalinapestana@gmail.com
