conheci a filomena teixeira em 2003, na universidade do minho.
a filomena é a ‘mãe coragem’ do rui pedro.
se quase todos os portugueses e muitos estrangeiros conhecem o rosto deste menino ao tempo do seu desaparecimento (em 1998) é quase exclusivamente graças à luta de 13 anos que a mãe e o avô travaram.
gastaram tudo o que tinham, moveram montanhas e lagos, o avô deu mesmo a vida na procura do neto.
no congresso internacional que o iac realiza anualmente sobre crianças desaparecidas, lá está sempre ela, a filomena, mais magra, mais triste, com aquele rosto que parece só não desistir de viver porque tem ainda uma missão a cumprir.
o rui pedro desapareceu em lousada, a 4 de março de 1998. na mesma noite, feitas as buscas habituais junto de amigos, colegas e vizinhos, o pai, manuel mendonça, participou o desaparecimento à gnr.
mandava então a lei – penso que já não manda – que um desaparecido só começasse a ser procurado 48 horas depois. se essa lei ainda existe, é igual a crime.
neste mundo globalizado, 48 horas é o tempo bastante para alguém levar uma criança para o outro lado do mundo.
passaram 13 anos, uma família foi–se destroçando, um jovem adulto (provavelmente irreconhecível pelos que o amam) talvez viva algures no mundo satisfazendo os desejos libidinosos de um velho rico e baboso.
treze anos passados – e muita luta inglória da família, dos amigos e de muitas ong – o dciap deduz acusação por rapto contra afonso dias, ao tempo com 21 anos e amigo da família.
o papel do agora acusado era conhecido das autoridades desde o início do processo.
porquê esta decisão agora, completamente fora de tempo?
terão a polícia judiciária e o ministério público levado 13 anos a perceber que a última pessoa que esteve na companhia de rui pedro terá sido o afonso dias, ou não perceberam e precisam de encontrar um bode expiatório para um caso mal trabalhado e, portanto, não resolvido?
sou amiga da filomena, mas não tenho mandato dela para dizer que isto não é mais de que um reabrir sádico de feridas para as quais não temos cura.
afonso dias, se tivesse sido interrogado correctamente em tempo útil, teria sido responsabilizado ou mandado em paz. teria permitido a esta família fazer o seu luto, se fosse caso disso, ou alegrar-se pelo reencontro do rui pedro – o que, segundo os indicadores, seria quase um milagre.
não sou dos que batem palmas à acusação do ministério público a dois ou três anos da prescrição do crime.
ao que se sabe, não existem factos novos. o que as autoridades sabem hoje já sabiam há 13 anos. não houve nenhuma viragem no processo. assim, a única consequência desta acusação é despertar na família uma esperança que me parece vã. na minha opinião, a família deve procurar a paz – e não a vingança.
filomena, peço-te: não deixes que aqueles que deviam ter feito tudo em tempo útil para encontrar o teu filho lavem agora a cara com as tuas lágrimas. levanta a cabeça, não te deixes embalar em estórias para meninos e seca os teus olhos.
deves ser uma das mulheres portuguesas que melhor sabem, por experiência vivida, que não há justiça na espera.
ninguém apagará a tua dor. mas a tua filha tem direito a uma mãe que esteja em paz, disponível para ela e talvez para os netos que te dará.
