Os homens querem-se bonzinhos?

Será possível haver provas mistas de atletismo ou futebol, com homens e mulheres a competir no mesmo plano?

As leitoras mais susceptíveis e militantemente feministas não deverão ler esta crónica para não se irritarem. Não porque ela seja abertamente anti–feminista – mas há certas verdades sobre as relações entre os sexos que algumas mulheres não gostam de ver escritas, pela simples razão de que não aceitam que entre homens e mulheres haja grandes diferenças.

Para as feministas mais impenitentes, homens e mulheres são iguais em tudo, ponto final.

Eu, pelo contrário, sempre apreciei as diferenças – e acho mesmo que elas devem ser exploradas e potenciadas. Homens e mulheres devem dar valor ao que os diferencia e não ao que os confunde. Acho um disparate haver mulheres a cortar o cabelo curto e a vestir blazer e gravata para se confundirem com homens, e homens a depilarem o peito e as pernas.

Quanto maior for a diferença entre os géneros, maior será a complementaridade – e maior será também, potencialmente, a atracção. Nós sentimo-nos atraídos pelo que é diferente – e não pelo que é igual. Tal como os ímanes – em que a atracção se dá entre os pólos de sinais opostos.

Mas estas verdades elementares são muitas vezes deliberadamente ignoradas por pessoas para quem o elogio da diferença é uma forma sibilina de estabelecer uma hierarquia entre os sexos. Existe a ideia feita de que, quando alguém diz que homens e mulheres são diferentes, pretende dizer, lá bem no fundo, que os homens são superiores às mulheres.

Ora, trata-se precisamente do contrário. Quando se fala em ‘diferença’ está a dizer-se que a comparação é impossível. Que não podemos estabelecer qualquer hierarquia entre os géneros pois eles situam-se em planos distintos.

Pretender que homens e mulheres são iguais em tudo é que conduz a uma comparação descabida. Será possível, por exemplo, haver provas mistas de atletismo, ou de futebol, com mulheres e homens a competir em plano de completa igualdade?

Feita esta ressalva, que julgo não deixar dúvidas a ninguém, passo ao tema de hoje. Que é o seguinte: será que as mulheres gostam dos homens ‘bonzinhos’? Já ouvi muitas histórias a este respeito. Não há muito tempo, a mãe de um fulano que acabara de separar-se da mulher confidenciava-me: «Ainda me parece impossível! O meu filho tratava-a tão bem! Cumulava-a de prendas, de elogios. Fazia-lhe todas as vontades, às vezes com sacrifício dele próprio… E um dia, sem dizer água-vai, ela saiu de casa».

Também o leitor já ouviu certamente histórias destas. Casos em que as mulheres são tratadas como princesas e acabam por deixar os namorados ou os maridos – trocando-os por outros aparentemente menos ‘atenciosos’.

E há os casos inversos de mulheres que são maltratadas, humilhadas, tratadas com desprezo pelos homens – e que não os deixam.

Porquê? Isso é o que vamos tentar perceber nesta crónica.

Este tema tem especial delicadeza porque, se não tomarmos as devidas precauções, poderemos facilmente cair na ideia de que o melhor modo de agradar a uma mulher é… tratá-la mal. «Quanto mais me bates mais gosto de ti» – postulava um velho dito popular. E as letras de muitos fados vinham em socorro desta ideia: «Não venhas tarde», suplicava uma mulher ao seu homem – e este respondia que, quanto mais a mulher lho pedia, mais tarde ele voltava para casa.

«Se o meu amor vier cedinho, eu beijo as pedras do chão que ele pisar no caminho» – dizia outra letra de um fado famoso, enquanto uma terceira avançava mais dramaticamente: «Por uma lágrima tua, deixar-me-ia matar».

Enfim, o nosso fado está cheio de paixões não correspondidas e de traições conjugais sempre perpetradas por homens – nunca por mulheres –, e de mulheres que, mesmo traídas, choram pelos maridos ou amantes.

Felizmente esse tempo passou. Porque, sendo os homens e as mulheres diferentes, para que as relações sejam sãs uns não podem ter mais deveres ou mais direitos do que outros. Tem de existir igualdade e reciprocidade na diferença. A mulher não nasceu para servir o homem – como o homem não nasceu para idolatrar a mulher.

O homem machista, mandão, gigolô – que Zezé Camarinha ‘caricaturou’ involuntariamente para a História –, é um objecto ridículo, de museu, quase um primata.

Não creio, no entanto, que tenha sido substituído pelo homem subserviente, demasiado solícito, despersonalizado, embasbacado com o ser que ama e sempre pronto a elogiá-lo.

Este tipo de homem está condenado à infelicidade. Dificilmente será bem-sucedido. Conheci vários homens deste tipo que falharam rotundamente no casamento – e sempre do mesmo modo: desprezados pelas mulheres que adoravam.

Cabe então perceber por que motivo isto acontece.

A explicação pode ser simples.

Por razões ancestrais, que não mudam numa geração – nem em 20 –, as mulheres ainda vêem muito o ‘seu’ homem como um protector. Como alguém que as protege de um meio exterior por definição hostil.

Portanto, apreciando embora os elogios, gostando de se sentir adoradas, de se julgar especiais, as mulheres precisam simultaneamente de segurança. E esse homem que a adora mas que ela sente ser frágil, que se mostra loucamente dependente dela, que não pode viver sem ela e está constantemente a dizer-lho, não lhe transmite um sentimento protector. Esse homem demasiado lamechas, bonzinho, não lhe garante a segurança.

Claro que estamos numa época em que tudo muda. Mudam as relações homem/mulher, mudam os padrões de beleza, os homossexuais beijam-se na rua, tudo se altera à nossa volta – e por isso temos dificuldade em perceber que haja sentimentos, hábitos, necessidades que permanecem, para própria defesa da espécie humana. Coisas que vêm do umbigo da História, que estão inscritas na nossa matriz.

E uma delas será esse paradigma do homem protector da mulher – e por extensão protector da família. O pater familias. Um homem forte, seguro, tranquilo, emocionalmente estável – muito distinto do tipo lamechas, frágil, subserviente e dependente, passando a vida deslumbrado com a ‘sua’ mulher e dando-lhe presentes caros, como se a pudesse comprar.

Creio que esta é uma explicação razoável para o insucesso dos homens bonzinhos junto do sexo oposto.