E o povo, pá?

A nossa guerra estánas ruas onde velhas e velhos morrem mais de solidão do que de fome.

não importa sol ou sombra camarotes ou barreiras toureamos ombro a ombro

as feras.

(…) só nos podem causar danos

esperas.

josé carlos ary dos santos escreveu um notável poema para a música igualmente excepcional e a voz quase imberbe de fernando tordo.

foi em 1973 que usaram o tradicional e piroso festival da canção, tolerado pelo regime, para cantar alto uma parábola que os estrangeiros não perceberam mas que a maior parte dos portugueses leu na totalidade.

o mal-estar era tão grande que mesmo os menos informados intuíam que o regime iniciava o seu estertor.

na ‘primavera marcelista’ haviam murchado há muito os rebentos que alguns tinham vislumbrado mas que nunca amadureceram.

a guerra colonial era, cada vez mais, feita por milicianos – alguns deles universitários com sentido crítico, que percebiam bem o que é o direito à autodeterminação dos povos.

entre os que não eram recrutados antes de terminar o curso, e nas jovens mulheres – viúvas em potência de uma luta que repudiavam – foi-se construindo uma retaguarda que o poder dizia «minar o moral das nossas tropas».

guardo as cartas que escrevi diariamente para o meu namorado; e as que recebi dele em maços de cinco ou dez. dão uma reportagem dessa guerra.

também ocupámos o nosso posto na retaguarda da guerra rejeitada.

nesse tempo, amigos, o nosso posto era esperar caladas e pudicas. algumas pisaram o risco.

no domingo passado, chorei quando vi e ouvi alguns daqueles que fizeram da cantiga uma arma usarem a sua voz ao lado das centenas de milhares que vieram à rua dizer pela primeira vez: basta!

grande número eram nossos filhos, ou amigos dos nossos filhos; outros eram nossos netos. e até lá estavam alguns avós dos nossos netos.

foram milhares pelo país fora. a polícia é que não era a mesma. a pide morreu para sempre.

num mundo em agitação total, numa europa em crise – mais ética do que económica –, os nossos filhos e os amigos deles, e os inimigos deles, realizaram uma das maiores manifestações de todos os tempos em portugal, sem a tutela paternalista dos partidos ou dos sindicatos.

os da minha geração têm de se orgulhar desta a que chamaram ‘rasca’ – porque, sem trela, pôs milhares nas avenidas da liberdade, e não se partiu um vidro nem voou uma pedrada.

eles estão maduros para tomar o poder. por isso, digo-lhes:

«os ‘capitães de abril’ tinham a vossa idade quando tomaram o poder à ‘brigada do reumático’. nenhum de nós tem o direito de vos dizer como devem fazê-lo, porque a situação actual é o resultado do que nós fizemos.

escolham os vossos mestres, se sentirem necessidade deles, mas escolham-nos independentemente das cores partidárias às quais estão conotados.

existem neste país alguns homens e mulheres, poucos, que vos dirão sempre a verdade, mesmo que ela seja adversa àquilo em que acreditaram durante muitos anos.

comprem lanternas, para procurarem bem, e se quiserem encontrarão – tenho a certeza».

só são úteis os que já não precisam nem desejam o poder.

os homens da luta deixaram com os votos do povo a pergunta: «e o povo, pá?».

o povo, se nós deixarmos, vai morrendo devagarinho, com reformas de 200 euros congeladas por dois anos.

a nossa guerra, agora, não tem tiros, nem bombas de fósforo, felizmente. a nossa guerra combate-se na nossa rua, ou na rua de trás, ou no largo da frente, onde velhas e velhos sozinhos morrem mais de solidão que de fome.

para alterar esta chaga social, não precisamos tomar o poder – só precisamos dar as mãos e estar atentos.

esta guerra é mais transformadora do que muitas outras. não faz capas de jornais, mas pode mudar a qualidade de vida das pessoas.

catalinapestana@gmail.com