Futebol e novos tempos

Quando a avó era menina,  não havia semana inglesa e a ideia de não trabalhar ao sábado durante todo o dia era impensável. O domingo era, por excelência, o dia da família.

umas famílias iam à missa e ao futebol, outras iam só ao futebol ou só à missa – mas ia-se sempre em família.

almoçava-se em casa, geralmente galinha corada ou carne assada, porque a carne se comia nos dias especiais: dias de festa ou dias de doença.

havia mesmo um provérbio que a avó ouvia repetir muitas vezes: «quando o pobre come galinha, ou o pobre está doente ou a galinha está doente».

hoje, o sinal de festa dos cidadãos comuns é dado por um almoço mais prolongado, de peixe grelhado, num restaurante. e futebol (no estádio ou no sofá) já não é um programa de família, tal como a missa.

quando a avó era menina, o bisavô tinha uma moto e um pombal cheio de pombos-correios. quando ia ao futebol, acomodava cuidadosamente os pombos numa cesta de verga rectangular que punha no porta-bagagens da mota – e, sempre que a bisavó não queria ir, a avó desempenhava o papel do filho que eles muito desejaram mas nunca tiveram. e lá partiam – o bisavô à frente e a avó atrás, – a acompanhar o belenenses por esse país fora.

de cada vez que o belém metia um golo, o bisavô largava um pombo – e, muitas vezes, o ‘vermelho’ ou a ‘branquinha’ chegavam a casa antes dos donos.

um ano, o vicente ganhou o prémio do jogador mais correcto, e a festa foi tão grande como se o belenenses tivesse ganho o campeonato.

quando a avó era menina, o futebol era uma festa, não era um campo de batalha.

neste domingo, todos os comportamentos ultrapassaram o tolerável.

pela primeira vez dei razão à minha avó, que nos leva a quase todos os sítios de que as avós não gostam (até ao surf, no inverno) mas nunca ao futebol.

jogava-se um benfica-porto, sendo que o porto, em função do lugar que ocupava na tabela, era já, na prática, o campeão.

foram destacados 800 policiais, especialmente preparados para evitar motins.
determinaram-se previamente os percursos, para que as claques de cada um dos clubes não se cruzassem à entrada ou à saída do estádio.

os espectadores de futebol, organizados em seitas, são bandos perigosos, armados e financiados não se sabe por quem.

parte da claque do benfica, seguida em directo por todos os canais, começou a apedrejar a polícia e os órgãos de comunicação social, obrigando uns e outros a recuar estrategicamente.

destruíram carros, levantaram a calçada, atiraram garrafas e paralelepípedos, tudo isto de cara descoberta, como se estivessem a exercer um direito cívico.

algumas dezenas deles podem ser identificados.

no interior do estádio, sei apenas que o porto ganhou – e que os seus adeptos quiseram, por direito, fazer a festa.

dois minutos depois de o árbitro ter dado por terminada a partida, enquanto as forças da ordem mantinham os adeptos do futebol clube do porto no estádio e os do benfica saíam, alguém mandou apagar as luzes e ligar a rega do relvado.

estes são os primeiros sinais dos comportamentos terroristas que se avizinham.

se eventualmente alguém abrir um inquérito, o culpado será sempre o porteiro ou o motorista, como em semelhantes situações a nível estatal. passados três dias, a federação portuguesa de futebol fez saber que o benfica será objecto de uma coima de 1500 euros pelo ‘apagão’ (e 2.500 pelo comportamentos dos adeptos).

o chefe que comandava os 800 polícias bem se multiplicou, dizendo que tinha sido um atentado à segurança de milhares de cidadãos e das próprias forças de segurança. deu-me sempre a ideia de que estava a falar para o boneco.

este é mais um sinal da degradação à qual chegaram as elites neste país, seja em que lugar de exercício do poder for.

o presidente do fcp, com o seu ar de rei do norte, dizia – rindo – que fora a vitória que comemorou de forma mais original: às escuras e com chuva de baixo para cima.

parece que a avó é quem tem razão: o futebol já não é uma festa – é um torneio romano que o poder tolera para justificar a sua própria fragilidade e decadência, como os imperadores no fim do império.

catalinapestana@gmail.com