Das duas uma

No primeiro livro, ‘A Noite e o Sobressalto’, Pedro Medina Ribeiro revela notável capacidade de efabulação e maturidade.

nunca como nestes últimos anos se publicaram tantos livros de ficção em português: romances contemporâneos e históricos, livros de contos, todas as semanas surgem novos nomes nas livrarias. é uma óptima coisa. alguns ficam pelo primeiro livro, mas outros conseguem, com maior ou menor sucesso, construir uma carreira. como escreveu marx, com pertinência, «da quantidade nasce a qualidade». pela curiosidade de descobrir novos talentos e também de encontrar histórias que possam inspirar-me para um filme (o que, em dezenas de anos, só aconteceu uma vez), todas as semanas trago para casa (ou recebo das editoras) uma mão-cheia de livros.

na minha biblioteca, não nego, tenho um verdadeiro cemitério de esperanças frustradas. mas também tenho descoberto excelentes escritores. um deles é pedro medina ribeiro, que eu tive a sorte de conhecer durante um workshop de escrita para cinema que dei há dois anos em lagos, e cujo livro de estreia se chama a noite e o sobressalto. são sete contos fantásticos, como o título indica, sobre os quais, agora que os reli, mantenho a mesma impressão que transmiti ao editor, quando o autor me deu a ler o manuscrito: «pedro medina ribeiro revela uma notável capacidade de efabulação e um domínio da técnica narrativa que foi beber aos grandes clássicos da literária anglo-saxónica, de dickens a conan doyle, de melville a poe. estes contos surpreendem-nos pela maturidade do autor, rara num livro de estreia».

a maioria dos contos passa-se numa época longínqua, por vezes indefinida, quase sempre num país do norte da europa. «talvez porque», como ele diz, «as noites são mais compridas (…), é entre os povos do norte que encontramos as narrativas mais surpreendentes, mais cruéis e mais fantásticas». todos eles, com maior ou menor brilho, revelam uma imaginação prodigiosa e um domínio da prosa invulgar. o conto de abertura, ‘a séance’, passado em berlim numa época em que os czares ainda reinavam na rússia, é uma obra-prima do género: as peripécias, o suspense, os volte-face, o realismo da descrição e a minúcia dos detalhes, fundamentais num conto fantástico, são perfeitos. em todos eles, como mandam as regras do género, o narrador-testemunha é alguém que não tem o espírito predisposto a acreditar em histórias do além: racionalista, céptico, com uma vida calma e normal, o narrador é arrastado para uma experiência sobrenatural, onde o terror – e o horror – acabam por envolvê-lo e dominá-lo. apenas um conto, ‘o monstro marinho’, que pedro medina reis descreve como «a história do monstro marinho que fecundou uma mulher», se passa no domínio do maravilhoso. dos contos curtos é um dos que prefiro, talvez porque, nas duas últimas linhas, como é seu hábito, o escritor faz-nos uma revelação surpreendente: «esta história (escreve o narrador) é-me particularmente querida. ou não fosse a história da minha mãe. a minha história». simplesmente sublime.

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