romã, minha querida neta,
quando te escrevo esta carta, estamos no dia 25 de abril de 2011.
costumas pedir-me que te conte as coisas do passado recente da nossa história e como eu as vivi, porque os livros da escola só trazem uns bocadinhos salteados.
hoje não mo pediste. mas, como estás a crescer muito depressa, preciso que saibas algumas verdades para as ensinares aos manos, quando as puderem perceber.
há 37 anos, como sabes, portugal vivia sob um regime político a que se chamava ditadura. eles chamavam-lhe estado novo.
os jovens do sexo masculino eram obrigados a ir para áfrica fazer a guerra colonial, e a maioria deles não concordava com essa guerra. as pessoas não podiam manifestar as suas opiniões – porque, se criticassem o governo, eram presas, torturadas e algumas vezes mortas.
sabes que a avó conheceu algumas dessas pessoas, e os filhos delas, como já te contei.
perguntar-me-ás: o que aconteceu de novo neste 25 de abril para ter escolhido esta forma diferente de falar contigo?
passo a explicar. em 1974, muitos jovens capitães e majores começaram a discordar daquela guerra que consideravam sem sentido, onde o crime dos ‘inimigos’ era quererem chamar sua à terra onde tinham nascido e onde estavam sepultados os seus ‘egrégios avós’.
depois, esses jovens militares começaram a pensar por que motivo um assunto tão importante como a paz e a guerra não se podia discutir, bem como outros assuntos decisivos para a vida dos portugueses.
os portugueses eram muito pobres, de dinheiro e de instrução. alguns achavam mesmo que o velho ditador, antónio de oliveira salazar, tinha o direito de pensar por nós, porque pensava melhor.
o velho dizia mesmo, no livro da 3.ª classe, que quanto menos soubéssemos mais felizes seríamos.
os militares do mfa organizaram um golpe de estado para derrubar a ditadura e permitir a eleição de um governo onde três palavras começadas por ‘d’ fossem as mais importantes: ‘descolonizar, democratizar e desenvolver’.
mesmo com muitos erros, esta foi a revolução mais bonita da nossa história.
um desses jovens militares usava o nome de óscar para os amigos saberem que era mesmo ele – e para a polícia não descobrir de quem estavam a falar.
era mais ou menos como a nossa brincadeira de eu te chamar romã, quando não queremos que os outros fiquem a saber o que dizemos.
em portugal, agora, como o pai já te disse, vivemos uma crise económica, financeira, moral, política e muitas coisas mais.
os que fizeram o 25 de abril, em 1974, sofrem muito com isso – porque acreditaram que, se mudássemos o sistema político que nos governava, mudaríamos também todos os comportamentos que fazem mal às pessoas.
mas não foi assim. e o óscar, que é um génio estratégico, que fez uma revolução sem derramar sangue (embora tenha feito algumas maluquices à mistura), este ano ‘passou-se’ mesmo e disse duas coisas muito graves: «se eu soubesse no que se transformaria o meu país, não teria feito o 25 de abril».
são só a raiva e a dor que ele sente que o fazem falar assim.
quando um dia o encontrarmos, podes dizer-lhe: «se naquele dia estivesses com a ‘birra’, o 25 de abril não deixava de se fazer porque estavam lá muitos outros e tu não ias querer que os teus netos não tivessem um avô herói».
hoje continuou a disparatar. na festa de belém, quando os jornalistas o questionaram sobre o que dissera alguns dias atrás, respondeu qualquer coisa parecida com isto: «o que eu queria para o nosso país era um chefe incorrupto como o salazar, mas de esquerda».
o homem ‘passou-se’ mesmo, romã! não há ditadores bons nem ditadores maus, não há ditadores de direita nem de esquerda. só há ditadores.
o óscar está a precisar de um amigo que o impeça de dizer disparates, que vão passar à história e que terá de carregar toda a vida.
ele tinha esse amigo, era o biribas, mas morreu cedo demais.
um destes dias conto-te as estórias bonitas que vivi com o óscar quando ele não estava ‘passado’.
quando o conheceres, vais perceber que estas conversas são para ele uma peça de teatro.
como tu, ele queria ser actor. e para nossa sorte fizeram dele militar.
