dentro de um mês seremos outra vez chamados a votar.
em quem? para quê?
antes de a população portuguesa se ter pronunciado sobre quem considera que a deve dirigir, a troika disse solenemente quais serão as linhas mestras do programa do governo de qualquer dos partidos que venha a tomar o poder no próximo mês de junho.
o cidadão comum, que durante a vida quase só trabalhou e criou filhos, acreditou que, de cada vez que era chamada a votar, estava a eleger os melhores para governar a coisa pública. ora, a um mês de distância das próximas eleições, muitos desses cidadãos estão confusos e desmotivados.
fiz durante a vida esforços reais para não dever nada a ninguém, a não ser favores aos meus amigos. agora dizem-me que não só eu mas os meus filhos e os meus netos vão ter de pagar uma pesada dívida que não fizemos e para qual não contribuímos.
estas repúblicas, a primeira e a terceira, as vividas em democracia, nunca souberam fazer contas. ou quiseram convencer-nos a nós e aos nossos avós que era preciso cumprir as bem aventuranças. bem aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus.
dois terços do mundo que venera um só deus está a desistir da justiça social em troca da eternidade.
ora não é isso que dizem os textos sagrados. os senhores do poder e os seus assessores, sabem-no bem. mas, com a cumplicidade de alguns senhores das igrejas, convencem os menos informados de que ser pobre é ser objecto de injustiças e não lutar contra elas.
as ideologias faliram – as políticas, as económicas, as éticas, as financeiras e as sociais.
para poucos restam ainda as utopias.
aqui, quase metade dos cidadãos não sabe em quem votará daqui por um mês – mas sabe que terá menos ordenado, menos reforma, menos saúde, da responsabilidade do estado que manteve com os seus impostos.
amanhã tudo será certamente pior do que hoje.
muitos estão adormecidos pelo fastidioso paleio dos políticos, que não dizem nada de novo e aos quais sempre que podemos retiramos o som.
é tempo de todos aqueles que não ‘foram ao pote’, nem tencionam ir, porem condições politicamente incorrectas.
as politicamente correctas já faliram, como as ideologias. assim:
– queremos saber quais serão os ministros que cada partido nos propõe para, ‘heroicamente’ cumprirem na sua área o programa imposto pelos nossos parceiros e pelo fmi;
– queremos saber que grau de autonomia eles terão para gerir a crise (de forma a transformá-la em oportunidade);
– queremos saber se não serão obrigados a aceitar os respectivos boys ou girls que não escolheram, de modo a poderem formar equipas pequenas, coesas e competentes.
– queremos saber se esses ministros e ministras sabem trabalhar uma crise financeira, estando convictos de que só um salto económico a poderá ultrapassar.
– queremos pedir aos melhores dos portugueses que aceitem pegar no leme do barco – mesmo que não gostem de navegar, mesmo que enjoem no mar, mesmo que nessa tarefa sejam salpicados por pingas grossas de água salgada.
poupem-nos a mais conversa fiada, porque alguns de nós não a suportam mais.
comecem a pensar naqueles que poderão governar melhor, juntos, sejam quais forem as ideologias nas quais acreditaram em tempos.
enquanto os nossos filhos não inventarem outras, só nos resta ser pragmáticos.
os mais sérios, os mais competentes, os mais generosos, os mais inteligentes, os mais trabalhadores e os mais firmes são aqueles que queremos eleger.
os partidos – como as ideologias – têm de passar uns anos num longo processo de reciclagem.
