no sábado, 14 de maio, os noticiários davam conta do escândalo que marcaria esta semana: «director geral do fmi detido em nova iorque por agressão sexual».
dominique strauss-kahn tem 62 anos, e, apesar de um acontecimento mais ou menos semelhante a este, cuja vítima retirou a queixa para evitar males menores em frança, era até agora bem amado pelos socialistas franceses e pré-candidato às próximas eleições presidenciais.
quando procurei detalhes sobre a notícia, encontrei nos comentários de um diário português considerado de referência um que me chamou particularmente a atenção: «este senhor está convencido que pode fazer às pessoas o que a instituição a que preside faz aos países que lhe pedem ajuda?».
será que o volume de trabalho de muitos responsáveis pelo mundo os faz perder competências ao nível das estratégias de sedução, do display que distingue nos humanos o amor do acasalamento?
é a segunda acusação de abuso sexual de que strauss-kahn é objecto durante o seu mandato.
ao contrário do que acontece em portugal, o sistema judicial americano funciona em tempo útil, quer para as vítimas quer para os arguidos.
o crime terá tido lugar no sábado 14, e o suspeito foi impedido de deixar os eua no próprio dia, sem que ninguém se pusesse o problema de saber qual era a sua função profissional ou o estatuto que teria no mundo.
quando escrevo, não sei ainda ao que conduzirão as investigações; sei apenas que há sistemas judiciais que funcionam, quer se trate de crimes contra as pessoas ou contra o património.
o sr. madoff, um dos responsáveis pela crise internacional que mostrou as fragilidades do sistema capitalista e conduziu alguns países à bancarrota, foi investigado, julgado e condenado em menos de um ano. cumpre pena.
mas os protagonistas dos conhecidos casos bpn e bpp estão sossegados nas suas mansões ou passeiam pelo estrangeiro, rindo de todos os tolos gananciosos ou ingénuos deste país que acreditaram que havia novas versões da dona branca, mas desta vez cotadas em bolsa e reconhecidas pelo banco de portugal.
na segunda-feira, 16 de maio, o fmi reuniu com o secretário geral interino e, sem misturar os fenómenos, a comunicação social foi unânime em considerar dominique strauss-kahn como: muito competente, conhecendo todos os ministros das finanças europeus e muitos do resto do mundo, tendo influência sobre a sra. merkel, com a qual dialoga em alemão.
só competências!
depois foi presente ao juiz, após ter sido objecto de exames médicos que demonstrarão, ou não, a veracidade das declarações da camareira/vítima, que afirmou tê-lo arranhado para se defender.
dentro de um mês, seja qual for o resultado da investigação, o poderoso director geral do fmi terá sido ilibado ou condenado.
seria bom que, além dos ainda pouco perceptíveis sacrifícios que o triunvirato veio exigir ao povo português, o acordo com o fmi e a união europeia não se centrasse exclusivamente na gestão económico-financeira.
o pacto da justiça, assinado em 2007 pelos dois principais partidos, deve ser o ponto de partida para a utilização das vias rápidas que abriu. e deve fechar de vez os atalhos por onde deambulam os criminosos depois de condenados e libertados em nome de uma qualquer alínea introduzida no código penal numa noite discreta em qualquer gabinete da assembleia da república.
o sistema judicial vigente nos eua não é, não será, modelo para ninguém enquanto nele permanecer a pena de morte.
mas quando o termo de comparação é o sistema judicial português, não tenho outro remédio senão sentir que em situação de vítima ou de suspeita eu preferia ser americana.
