Comer de graça ou morrer no mar

Fugidos a Kadhafi ou às bombas da NATO, refugiados morreram à vista de um navio de guerra.

no passado fim-de-semana iniciou-se formalmente a campanha eleitoral.

o vazio de todos os discursos é confrangedor, embora desta vez tal vazio possa ser justificado pelo acordo assinado entre três partidos e as organizações internacionais que nos adiantarão dinheiro para pagar as dívidas mais urgentes.

o problema é que a forma não consegue libertar-se do ‘estafado’ comício ou dos ‘inovadores’ jantares ou almoços partidários.

a única novidade parece ser o colorido dos novos frequentadores de tais eventos. são imigrantes, envergando trajes típicos, não entendendo ainda a língua que se fala neste país, nem sabendo ao que vão. são ‘convidados’ para passeios a cidades históricas. évora é um dos exemplos, com direito a farnel, para encher a praça do geraldo.

como diria o diácono remédios… não havia necessidade.

faço parte dos 40% de portugueses que não sabem ainda em que partido irão votar, mas que por certo o farão. porque alguns de nós lutaram e sofreram por esse direito, que se transformou em dever.

o folclore eleitoral tem-nos distraído do que vai acontecendo pelo mundo, enquanto os nossos queridos candidatos percorrem a rota da carne assada sob um calor pouco colaborante.

um destes dias, na europa comunitária, perto de itália, perante a indiferença da tripulação de um vaso de guerra da nato, afogaram-se à distância de uma ou duas balsas homens, mulheres e crianças, refugiados de guerra, fugidos ao terror do senhor kadhafi ou aos bombardeamentos da digna organização.

a organização do tratado do atlântico norte, fundada em 1949, em plena ‘guerra fria’, surgiu em consequência do crescente poder militar da urss e seus países satélites, em oposição à fragilidade da europa – que ao tempo ensaiava a sua reconstrução pós-segunda guerra mundial.

os então chamados ‘países de leste’ fundaram depois, em 1955, o pacto de varsóvia.

diziam-nos ao tempo que o arsenal bélico dos dois blocos, o capitalista e o comunista, tinha um efeito dissuasor, sendo garante de uma paz alimentada pela pedagogia do medo.

o pacto de varsóvia extinguiu-se em 1991, com a queda do bloco comunista, mas a nato ficou e foi crescendo.

juro que não sei para quê nem porquê.

sei apenas que os filhos de alguns de nós vão ainda para a bósnia ou para o afeganistão, no quadro dos nossos compromissos com a nato.

que me desculpem os senhores generais que explicam as guerras na televisão, mas nunca percebi aquela urgência de comprar submarinos – cujo contrato foi estabelecido pelo governo de guterres e que chegaram há dois ou três meses atrás.

claro que, para qualquer coisa ser válida, não é preciso que eu perceba. mas tenho de pagar, como os outros cidadãos.

o que não tolero é ter de pagar comportamentos bárbaros, como os que tiveram lugar perto de lampeduza, quando aquelas centenas de refugiados de guerra procuravam salvar a pele e a das suas famílias – e foram deixados à sua sorte por uma entidade que nós, os habitantes dos países ‘desenvolvidos’ e ‘civilizados’, mantemos activa.

sou paisana militante – mas estava convicta de que estas forças internacionais obedeciam a alguns (poucos) valores e tinham a sua ética. mais uma vez me enganei. e tenho a sensação de que me enganei sozinha, porque não ouvi protestos, nem nas portas do sol de madrid.

razão tinha o meu grupo minoritário nos longínquos anos 70 quando gritava nas manifestações: «nem nato, nem pacto de varsóvia!».

catalinapestana@gmail.com