O meu dia 4 de Junho

Do Eu Solitário ao Nós Solidário talvez seja o livro mais interpelativo publicado neste século.

o homem regressou. num mês quase percorreu a metade oriental do mundo. traz as normais mazelas de viajante: queimaduras solares mal tratadas para disfarçar, pés esfolados, mágoas de expectativas frustradas, e aquele olhar de quem quer ver para além das aparências.

chegou da última etapa da viagem, timor, e três horas depois lançou, com o seu parceiro de escrita joaquim franco, um livro – do eu solitário ao nós solidário – ao qual chamam «uma conversa sem rede ou preconceitos».

o livro ficou na editora, enquanto ele, o frei fernando ventura, foi ver como estava o mundo.

não teve tempo de o acariciar, de estabelecer relação física com ele. deixou essa carga ao joaquim. espero que a campanha eleitoral lhe tenha permitido fazer isso, porque o vi todas as noites no seu papel de jornalista, a acompanhar uma das candidaturas.

um livro como este é quase pessoa.

precisa de muita atenção e de cuidados especiais.

no processo dialéctico que o estrutura, cada homem ou mulher que o leia devagarinho encontrará, seja qual for a sua circunstância, algo que mexe com parte do que é essencial em si.

não é um livro para crentes, de bem com as suas certezas e seguranças, nem um livro para agnósticos, de bem ou de mal com as ciências – onde a verdade nunca mais será absoluta, porque só existem verdades parcelares num tempo e num espaço cada vez mais acelerado e fugidio.

é um livro para humanos, que chegaram à conclusão de que pensar é um direito, mas é também um dever, seja quem for o mentor desse pensamento.

os dois autores, ao longo da conversa, trocam de papéis: umas vezes é um que pergunta e o outro responde, outras vezes invertem-se as posições.

é assim na vida. devia ser assim nas vidas. ninguém é dono da verdade.

do eu solitário ao nós solidário é talvez o livro mais interpelativo que dois homens de fé, um leigo e um religioso, produziram neste século. e a sua diferença essencial em relação a outras grandes obras escritas pelo mundo é que este é acessível a todos os humanos e não só a especialistas.

no passado dia 4, dia de reflexão eleitoral, os que estiveram na bulhosa do campo grande, depois da grande trovoada, saíram de lá provavelmente como eu.

a angústia da decisão correcta a tomar no dia seguinte, fosse qual fosse a noção de ‘correcto’, tinha passado para segundo plano.

para a maioria dos presentes – e eram muitos – que não conheciam o texto, a apresentação feita pelo bispo januário torgal ferreira permitiu a cada um perceber que estava a passar por ali um debate fundamental sobre deus, o homem, a vida e a relação entre as partes, que depois de escrito e lido nunca mais nos permite voltar à estaca zero.

ocaminho faz-se caminhando» – escrevia o poeta antónio machado. neste livro, é central o significado do caminho para imaús. foi só aí que eles perceberam.

tenho muita pena que alguns pioneiros deste país no desbravar de caminhos não andados – como o padre abel varzim, o bispo do porto d. antónio ferreira gomes ou o padre josé da felicidade alves – não possam partilhar de corpo inteiro esta aventura.

porque acredito que a outra vida não é o descanso eterno, talvez estes e muitos outros profetas dos nossos dias nos ajudem a ler e a interpelar estas palavras.

catalinapestana@gmail.com