Não gosto de bispos

Quando ele ainda não era bispo, trabalhámos juntos. Vestia-se como um homem comum e nunca fez sermões nem deu conselhos.

já escrevi algumas vezes (e pensei muitas) que não gosto de bispos.

vestem-se de marquesas, como disse o cardeal de paris no concílio vaticano ii, deixam ou exigem que os tratemos por dom, mesmo que sejam republicanos, e raramente assumem os valores que tinham defendido antes de atingir o topo da carreira.

parece que os padres que chegam a bispos são coados por um passador de leite – para que a nata fique no passador e o leite que chega aos paços episcopais seja pasteurizado, asséptico, inodoro e sem gosto.

também já escrevi que os poucos que conseguem passar pelo crivo sem fazer ondas, e mantêm as suas características ‘genéticas’, têm condições raras para ajudar a construir mundos melhores. o problema é que são poucos.

hoje abri um jornal e, num daqueles cantinhos com a frase do dia, um bispo dizia: «o rumo das sociedades decide-se muitas vezes em pequenos gestos e depende da humildade das decisões». estava lá a fotografia dele, e eu tive saudades.

quando ele ainda não era bispo trabalhámos juntos, com mais um grupo de professores de todo o país. ele vestia-se de homem comum, comportava-se como qualquer outro professor comum, empenhado e comprometido. nunca fez sermões nem deu conselhos audíveis por quem não era objecto deles.

alguns só a meio do projecto é que perceberam que ele era padre.

contou-me uma colega desse grupo que um dia se tinha encontrado com ele a meio do país para partilhar problemas pessoais. era agnóstica.

hoje, esta frase no jornal, dita por ele na qualidade de bispo, foi feixe de luz em noite de lua nova.

lembro-me de há muitos anos termos ido a um congresso a roma.

um amigo meu – então adido eclesiástico na embaixada de portugal no vaticano, a quem, avessa às hierarquias, eu chamava ‘o meu monsenhor de estimação’, pela paciência que tinha para responder a todas as perguntas impertinentes que o vaticano suscita em pessoas com meu perfil – deu-me um cartão vermelho que dava acesso a uma das audiências papais.

o papa era ainda joão paulo ii.

porque não sinto qualquer necessidade de ver ou tocar nos ícones, achei que o meu colega padre e professor, valorizaria mais aquela oportunidade.

assim, dei-lhe o meu cartão vermelho personalizado, dizendo: «os suíços não distinguem, só querem ver um cartão vermelho». ele lá foi, olhos de criança a rir.

à noite, quando nos encontrámos todos para o jantar, perguntei: «como foi? conta-me tudo». tímido, respondeu: «não fui, peço desculpa. quando eu estava na fila para entrar, vi uma freira, já muito velhinha, que me disse ser vietnamita, que vinha a roma pela primeira vez e que não sabia que era preciso convite para entrar. dei-lhe o teu. talvez ela não tenha tempo para voltar cá e conhecer o papa».

sorri com os olhos húmidos.

passados poucos anos, soubemos que o antónio seria ordenado bispo em lamego.

alguns de nós alugámos uma carrinha e fomos à sua festa. de surpresa.

os seus amigos de lá arranjaram-nos lugares de onde podia ver-se e ser visto.

no regresso pensava: «oxalá eu não venha a ter saudades do padre que ele é».

passaram mais anos, não voltámos a ver-nos, mas encontramo-nos muitas vezes – nas palavras e nos sinais.

catalinapestana@gmail.com