hoje o que sei é muito pouco, mas como todos os restantes portugueses sofro as consequências da sua acção. e faço um esforço para traduzir em língua de gente o economês que inventaram para tornar hermética uma linguagem que determina a qualidade de vida de muitos países.
uma agência de rating, do que tenho podido perceber, é uma organização à qual os países, autarquias e empresas que querem ser avaliados pagam, para que esta proceda a uma análise rigorosa e independente do estado da sua economia e finanças.
até aqui, tudo normal. em português, chama-se ‘avaliação externa’.
o pior vem depois.
segundo a lei da selecção natural, embora existam várias agências de rating, apenas três, no máximo quatro, adquiriram o estatuto suficiente para condicionar o comportamento dos mercados de forma determinante.
teoricamente os seus técnicos são independentes, competentes, eficazes, digamos, ‘tecnocratas puros’. os seus donos é que são homens de negócios, que compram e vendem valores – e, portanto, têm influência nos mercados aos quais as suas agências determinam as regras de jogo.
de um jogo falseado.
lembram-se que em 2009 as mesmas agências davam a classificação máxima (aaa) à vertente da economia americana que, poucos dias depois, implodia, levando consigo todas as outras que com ela se relacionavam?
são estas organizações e estes senhores que se dão ao luxo de atirar para o ‘lixo’ toda a actividade de países como a grécia, a irlanda, portugal, a espanha e agora a itália. por acaso estas agências são todas americanas.
os estados unidos da américa, cujo povo muito respeito – e pelo qual tenho uma quase ternura –, são, enquanto estado soberano, um adolescente prepotente e malcriado. dos que fazem pirraça aos colegas de escola, com os seus brinquedos novos, sejam eles armas, informação, agências de rating ou máquinas de fabricar dólares. como todos os adolescentes, o estado americano também tem a outra face da moeda: pode ser generoso, criativo, arrojado e mesmo destemido.
a minha maior zanga nestes tempos conturbados não se vira directamente para a adolescente américa, mas para a união europeia, que continuará a discutir o sexo dos anjos, enquanto ainda é tempo de dizer a essas agências de rating: «vão para o vosso quarto já, que é grande, e quando souberem comportar-se como pessoas civilizadas voltem».
vejam o que fez a china – que, embora não seja exemplo para ninguém em termos de direitos humanos e de condições de trabalho, pôs no seu lugar os adolescentes mal comportados, e criou um grupo seu, só para si.
a união europeia está a comportar-se como um conjunto de pais imaturos, que quando os cabelos brancos e as rugas são já visíveis vestem os blusões dos filhos, de onde saem as suas proeminente barrigas, e frequentam as mesmas discotecas. só que já não sabem abanar o capacete.
a comunidade europeia não tem líderes, tem chefes não eleitos universalmente, com os quais ninguém se sente solidário.
mas na europa existem líderes, como o juiz baltazar garzón, que os velhos burocratas espanhóis calaram por saberem que os esqueletos que têm nos armários podiam vir à luz do dia.
o poder das agências de rating só existe porque nós lho damos de bandeja. e ainda lhes pagamos por cima para o exercerem a seu bel prazer e longe de qualquer controlo.
se todas as câmaras do país tomassem a atitude que tomou o presidente da câmara de sintra e dissessem «não pagamos!».
se todos os economistas que têm esta leitura do fenómeno fizessem como aquele grupo encabeçado por manuela silva e josé manuel pureza e apresentassem queixa-crime por perdas e danos contra as agências de rating – talvez a união europeia as ensinasse a apanhar e digerir todo o lixo que produziram.
