De vez em quando descobrimos que ainda há heróis

Recordem este nome: Nick Davies. Profissão: jornalista. Foi ele que expôs, no Guardian, a prática reiterada de escutas ilegais por parte do News of the World, um dos vários tablóides de que o magnata australiano Rupert Murdoch é dono, só na Grã-Bretanha.

de vez em quando, descobrimos que ainda há heróis. e os jornalistas, num mundo onde as guerras de tróia já não se repetem, são, muitas vezes, os heróis dos nossos dias. tal como bob woodward, jornalista do washington post, há 29 anos, que levou à demissão de nixon, davies pode muito bem ter aberto a caixa de pandora que leve, pelo menos no uk, ao desmantelamento do império de murdoch e, quem sabe, à sua prisão.

dennis potter, o autor de séries famosas da tv britânica como singing detective, que morreu em 1994 com um cancro no pâncreas, foi um dos mais violentos acusadores dos malefícios que a proliferação acelerada do poder de murdoch nos media britânicos estava a causar na bbc, na saúde da velha democracia e na decência da vida cívica em inglaterra. a verdade é que, de thatcher a blair, todos os últimos pm foram eleitos com o seu apoio. tentacular, o império desta versão insular de citizen kane (a versão soft com que orson welles retratou o tenebroso william hearst) alastrou pelo país como uma chaga, ao ponto de potter ter chamado ao seu cancro «o meu rupert», e ter dito em directo, na tv, que ele era, entre outras coisas feias, uma versão mediática de hannibal the cannibal.

hoje, depois da demissão, para tentar evitar consequências mais graves, de rebekah brooks, a ex-directora executiva da news corporation, começa a saber-se o que foi, ao longo dos últimos anos, a rede de corrupção e de chantagem sobre os políticos, a polícia e várias figuras públicas, exercida pelo tablóide e, geralmente, pelo império dos media controlado por murdoch. o actual pm britânico era amigo pessoal de rebekah, que convidou várias vezes para sua casa, e o comissário da polícia metropolitana de londres, sir paul stephenson, acabou por se demitir por ter sido revelada a promiscuidade das suas relações com um antigo editor do now.

a procissão ainda vai no adro, porque as revelações sobre corrupção e abuso de poder por parte de murdoch devem exceder a imaginação do melhor guionista. dono de cadeias de tv, jornais, editoras e serviços integrados de marketing em todos os continentes, desafiando as regras da concorrência e os poderes legais, murdoch domina largamente a opinião pública em três países: uk, usa e austrália – por ‘coincidência’, os três principais países que apoiaram a invasão do iraque. por cá, como se não bastassem os casos de berlusconi ou de bouygues, este exemplo tenebroso do poder desmesurado dos media quando os estados abrandam a sua vigilância não parece comover ninguém. pelo que anuncia o governo, a prioridade para o sector é entregar a rtp a um grupo privado. estamos conversados.

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