A liberdade está a passar por aqui

Já nem a silly season é o que era… felizmente. No passado fim de semana, em dois jornais de referência, foram publicadas duas entrevistas que, do meu ponto de vista, poderiam ter um efeito determinante no reencontro deste povo com o que de melhor existe nele – a sua alma.

frei bento domingues à revista pública e miguel portas à única.

parabéns às entrevistadoras, porque a matéria-prima pertence aos entrevistados e elas não perderam quase nada, e parece não terem estragado coisa nenhuma.

ambas fizeram-me acreditar que ainda há homens e mulheres com capacidade transformadora neste país; e, quando sabemos para onde vamos, embora os caminhos sejam diferentes, havemos de encontrar-nos algures. por isso retomo as entrevistas, para ajudar a que não caiam no esquecimento.

neste verão em que o vento não nos deixa ler ao ar livre, em que o terror louco da noruega e os milhões que os clubes de futebol pagam pelo passe dos jogadores, como se de escravos de luxo se tratassem, ocupam o essencial do espaço informativo, senti uma necessidade vital de partilhar com quem lê esta crónica o que de novo estas duas peças me transmitiram.

a liberdade está a passar por aqui! a liberdade adulta, assumida, vivida, sofrida, amada.

não conheço pessoalmente o miguel portas, embora não precise que ninguém nos apresente. ele é um político que mesmo os que pensam diferentemente dele aprenderam a respeitar. e a partir desta entrevista passou a ser também para o grande público um homem que se escreve com maiúscula.

não preciso que ninguém nos apresente, porque pertencemos à mesma cooperativa, como ele diz.

temos ambos um cancro, e não temos pena de nós próprios.

é quando se tem uma doença como esta que alguns fazem os grandes balanços das suas vidas.

o balanço da vida do miguel tem um saldo de tal maneira positivo que vou guardar a revista para quando os meus netos puderem perceber (a mais velha já tem 12 anos) eu poder dar-lhes o texto a ler – como algumas avós davam aos netos vidas de santos para lhes ajudar a formar a personalidade.

gostava muito de falar pessoalmente com o miguel portas, uma vez que fosse, sobre o que o francisco louçã lhe disse sobre o processo casa pia. desejo do fundo do coração que ele não saiba demais.

conheci frei bento domingues nofinal dos anos sessenta.

só o vi uma vez com o hábito branco imaculado, em fátima.

quando o papa paulo vi veio a portugal, depois de ter recebido os líderes dos movimentos de libertação africanos, o ambiente político era de cortar à faca.

um grupo de católicos, chamados progressistas, produziu um pequeno texto anticolonial – e os mais novos foram para o recinto do santuário distribuí-lo. eu fazia parte destes jovens. o opúsculo era fininho, tipo papel bíblia, de várias cores. e frei bento tinha alguma responsabilidade na manutenção dos stocks, não sei bem como.

aprendemos nesse grupo que, quanto menos soubéssemos das tarefas uns dos outros, menos riscos eles e nós corríamos.

foi por aí que fiz caminho. hoje, os quase dez anos que me separam de frei bento não se notam, mas naquele tempo eu era uma garota e ele um senhor crescido.

também nos tratávamos todos por tu, e não era por táctica – era mesmo só ‘porque sim’. porque isso selava o compromisso da sociedade nova que queríamos ajudar a construir.

ainda hoje o movimento ‘nós somos igreja’ me faz chegar semanalmente o que frei bento e alguns outros profetas do nosso tempo vão escrevendo.

num país onde quase não acontece nada mais do que corrupção, dívida externa, lugares de compadrio, ausência de valores, desânimo, raiva… num fim de semana de verão três mulheres falam com dois homens de vidas plenas de procura, dádiva, coerência e contradições, bem e mal resolvidas.

de vidas cheias de amor, de procura da verdade, da forma certa de construir a liberdade.

dois homens solidários com suportes ideológicos aparentemente diferentes. embora não pareça a olho nu, o novo paradigma está a passar por aqui.

catalinapestana@gmail.com