A revolução dos pacíficos

Um doutor, de nome Paulo Macedo, que fez muito bom trabalho como director-geral dos impostos, ao tempo em que Manuela Ferreira Leite era ministra das Finanças, foi agora nomeado ministro da Saúde. Não pela sua competência específica, mas pela consumação do Princípio de Peter… e aceitou.

na semana passada, fez sair um papel, com valor de lei, a entrar em vigor nos próximos dias, que determina que todas as deslocações de doentes crónicos, protocoladas entre o estado e os bombeiros ou empresas privadas de transporte de utentes do serviço nacional de saúde, passassem a ser pagas directamente pelos cidadãos, e eventualmente reembolsadas pelo estado, se for caso disso.

o estado só assume automaticamente os transportes de emergência médica.

a dona germânia é viúva, tem uma filha polideficiente com 36 anos, que em tempos um vizinho, homem feito, engravidou. dona germânia cria a neta adolescente revoltada, e cuida da filha. esta passa os dias na fundação/liga dos deficientes motores, enquanto a mãe trabalha a dias para completar o apoio que a paróquia e a junta de freguesia lhe dão em géneros alimentares.

são os bombeiros quem diariamente a transportam da e para a liga, da e para a fisioterapia, para os hospitais ou para os médicos. pesa quase cem quilos.

que farão os milhares de donas germânias, a partir de 1 de setembro? talvez se o senhor ministro passasse um dia, só um dia, a viver com uma destas famílias, não produzisse despachos cegos.

no passado domingo, o senhor primeiro-ministro fez o discurso da rentrée política do seu partido no pontal, que agora é em quarteira.

ouvi-o num silêncio quase religioso, porque não estava mais ninguém em casa.

cheguei à conclusão mais preocupante, à qual pode chegar uma mulher comum, informada, e que tem utilizado o tempo útil da sua vida a trabalhar nas margens e com as margens. o homem acredita mesmo no que está a dizer. e parece mesmo sério.

no meio do discurso, e porque para o bem e para o mal é muito jovem, facto que felizmente não lhe permitiu ter ouvido em directo nada parecido, diz a frase assassina: «todos – os que votaram e não votaram no partido do governo – somos indispensáveis para com os nossos sacrifícios ajudarmos a honrar os nossos compromissos». era mais ou menos isto que os mais velhos identificam bem nas palavras de salazar: «todos não somos demais para salvar portugal».

não conoto de forma alguma o senhor primeiro-ministro com o falecido ditador, mas, sejamos pragmáticos: do ‘honrosamente sós’ ao de joelhos perante os mercados, não vai grande distância. é só a distância do contexto.

lembro-me bem dos ‘homens sem sono’ que governavam o país durante o prec.

eram jovens, sérios e bem intencionados na sua maioria, mas entraram em órbita e perderam o pé. eram quase todos militares.

estes são quase todos professores universitários, e também não dormem. estão a pisar um terreno salpicado de perigos, que não estão preparados para identificar.

a primeira função que foi atribuída ao estado moderno no século xviii foi a de garantir a segurança dos cidadãos. depois veio a educação e mais tarde a saúde.

as forças de segurança, que arriscam as suas vidas para garantir a nossa, estão a ser tratadas de forma degradante, quer pela legislação vigente, quer pelo autismo governamental.

catalinapestana@gmail.com