na semana passada, fez sair um papel, com valor de lei, a entrar em vigor nos próximos dias, que determina que todas as deslocações de doentes crónicos, protocoladas entre o estado e os bombeiros ou empresas privadas de transporte de utentes do serviço nacional de saúde, passassem a ser pagas directamente pelos cidadãos, e eventualmente reembolsadas pelo estado, se for caso disso.
o estado só assume automaticamente os transportes de emergência médica.
a dona germânia é viúva, tem uma filha polideficiente com 36 anos, que em tempos um vizinho, homem feito, engravidou. dona germânia cria a neta adolescente revoltada, e cuida da filha. esta passa os dias na fundação/liga dos deficientes motores, enquanto a mãe trabalha a dias para completar o apoio que a paróquia e a junta de freguesia lhe dão em géneros alimentares.
são os bombeiros quem diariamente a transportam da e para a liga, da e para a fisioterapia, para os hospitais ou para os médicos. pesa quase cem quilos.
que farão os milhares de donas germânias, a partir de 1 de setembro? talvez se o senhor ministro passasse um dia, só um dia, a viver com uma destas famílias, não produzisse despachos cegos.
no passado domingo, o senhor primeiro-ministro fez o discurso da rentrée política do seu partido no pontal, que agora é em quarteira.
ouvi-o num silêncio quase religioso, porque não estava mais ninguém em casa.
cheguei à conclusão mais preocupante, à qual pode chegar uma mulher comum, informada, e que tem utilizado o tempo útil da sua vida a trabalhar nas margens e com as margens. o homem acredita mesmo no que está a dizer. e parece mesmo sério.
no meio do discurso, e porque para o bem e para o mal é muito jovem, facto que felizmente não lhe permitiu ter ouvido em directo nada parecido, diz a frase assassina: «todos – os que votaram e não votaram no partido do governo – somos indispensáveis para com os nossos sacrifícios ajudarmos a honrar os nossos compromissos». era mais ou menos isto que os mais velhos identificam bem nas palavras de salazar: «todos não somos demais para salvar portugal».
não conoto de forma alguma o senhor primeiro-ministro com o falecido ditador, mas, sejamos pragmáticos: do ‘honrosamente sós’ ao de joelhos perante os mercados, não vai grande distância. é só a distância do contexto.
lembro-me bem dos ‘homens sem sono’ que governavam o país durante o prec.
eram jovens, sérios e bem intencionados na sua maioria, mas entraram em órbita e perderam o pé. eram quase todos militares.
estes são quase todos professores universitários, e também não dormem. estão a pisar um terreno salpicado de perigos, que não estão preparados para identificar.
a primeira função que foi atribuída ao estado moderno no século xviii foi a de garantir a segurança dos cidadãos. depois veio a educação e mais tarde a saúde.
as forças de segurança, que arriscam as suas vidas para garantir a nossa, estão a ser tratadas de forma degradante, quer pela legislação vigente, quer pelo autismo governamental.
