Um Deus que dança

Ao entrar naquela livraria ao fim da manhã, tropecei num livro do qual só dera conta nessa manhã de fim de verão. Um livro que me reconciliou, pelo menos temporariamente, com a nossa forma comum de atravessar as crises – zangados.

tão zangada tenho estado, que não me dei conta que, em maio, o padre tolentino de mendonça dera à luz mais um livro de poemas: um deus que dança.

por via da mesma zanga, não tive mais cedo a surpresa grata de poder ter lido também o prefácio escrito pelo actor luís miguel cintra.

sentir duas vertentes de arte a rezarem juntas, e a conseguir este conjunto harmonioso e desafiante, fez-me criar sangue novo nas veias.

fez-me sentir o consolo de que a utopia é possível.

«cidade sem muros nem ameias/ gente igual por dentro/gente igual por fora…» – que tantas vezes cantávamos sentados nas várias escadarias da universidade, com palavras emprestadas pelo zeca afonso, quando a liberdade era ainda uma miragem.

este livro é para mim a história de um caminho que muitos fizeram juntos num determinado tempo das suas vidas. desse caminho, divergiram – para percorrer ou inventar outros, para experimentarem a compartilha de muitas formas de ser humano. e chegaram aqui, onde sabem muitos que este, como outros caminhos, se faz continuando a andar.

do meu ponto de vista, este deus que dança não é apenas um livro para católicos, nem mesmo para cristãos. no extremo, nem sequer é um livro para mulheres e homens abertos a qualquer forma de transcendente.

é um cântico à consciência global e livre de cada ser humano.

percorrê-lo é encontrarmo-nos em cada canto com o que somos, com o que temos pena de não ser e com aquilo que temos a esperança ainda de poder vir a ser um dia.

só a título de exemplo, transcrevo uma das reflexões, poema, oração:

«é bom saber que esperas por todos senhor, ninguém vive tão à espera como tu! na tua misericórdia esperas por todos: pelos que estão longe e pelos que estão perto. pelos que se lembram e pelos que têm o coração submerso no esquecimento mais fundo. pelos que todos os dias te rezam: ‘vem senhor’ e por aqueles cuja oração é uma ferida silenciosa, um tormento ou uma revolta. é bom saber que esperas por todos. e que na imensidão compassiva da tua espera, cada um pode reaprender o sentido verdadeiro da esperança».

queria poder multiplicar pelos biliões de humanos cópias deste livro, nas suas línguas maternas ou numa qualquer língua mátria que ainda não conhecemos, mas que, espero, ainda inventaremos.

não sei. não posso.

em alternativa, vou pô-la na mochila de um outro amigo, também ele profeta e andarilho, que parte amanhã para a américa do sul.

com os autores deste livro, e mais o outro, já serão três. «quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles» – diz o velho livro que muitas vezes dá cobertura a guerras fratricidas.

vamos deitar mãos a isto e explicar, devagarinho, que é preciso sair das conchas e dizer em verdade a cada humano, usando a forma que ele entender melhor: «gosto muito de ti».

catalinapestana@gmail.com