sem poderem reclamar os créditos em praça pública, temendo retaliações, têm optado por cortar nas despesas de pessoal. o grupo tâmega, por exemplo, desencadeou um processo de despedimento colectivo que atinge 160 dos 400 trabalhadores. o sol apurou também que o grupo afa-avelino farinha e agrela, dos maiores da região, se prepara para despedir, após as eleições regionais de 9 de outubro, cerca de 300 trabalhadores.
enquanto é constituída a comissão de trabalhadores para as negociações do despedimento colectivo na tâmega, há já ameaças de manifestações junto à residência oficial de alberto joão jardim, caso os vencimentos em atraso não sejam pagos. a juntar-se a este movimento está a união dos sindicatos da madeira, que prepara uma jornada de luta para 1 de outubro, aderindo ao protesto nacional.
endividado mas a inaugurar
em tempo de pré-campanha eleitoral, a oposição tem saído em defesa dos trabalhadores e famílias que engrossam as estatísticas do desemprego na madeira, já a ultrapassar os 16 mil. criticam ainda a política seguida por jardim, que não só não paga as dívidas em atraso aos empreiteiros, como se tem exibido em inaugurações de novas estradas, mesmo havendo algumas por pagar. estima-se que só o governo regional deva à tâmega, cuja dívida global ronda os 100 milhões de euros, cerca de 20 milhões. números não oficiais porque nem o governo nem as empresas precisam os dados.
diamantino alturas preside ao sindicato dos trabalhadores da construção civil e relata o «drama» dos trabalhadores despedidos ou com salários em atraso. «há casais que vivem em casa dos pais e que se alimentam com as suas reformas de 300 euros», diz.
o sindicalista critica ainda o facto de o poder social-democrata tudo controlar, sem pensar na sobrevivência dos trabalhadores. e recorda que, numa reunião negocial com o responsável pela tâmega, foi dito que a falta de pagamentos do governo e das câmaras, na ordem dos milhares de euros, conduziu à situação de despedimento. mas, pouco tempo depois, tudo foi desmentido em comunicado. a razão é simples, explica: «o presidente da associação da indústria e da construção, jaime ramos, que também é secretário-geral do psd-m, em vez de defender as empresas associadas prefere defender o chefe jardim, impondo-lhes quase um voto de silêncio. na verdade, governo e câmaras não devem milhares às empresas, mas milhões de euros».
do lado dos empresários que operam na madeira, a argumentação é a de que «a responsabilidade social das empresas não é conciliável com os significativos atrasos na canalização oficial das verbas, porque a banca também impões restrições ao crédito». apontam como primeiro factor o mercado recessivo, que trouxe uma quebra substancial na construção. até há bem poucos anos, mais de 80% do investimento das empresas era de natureza pública, e as obras estão à vista com as vias rápidas, os túneis, as promenades e outros imóveis emblemáticos da madeira. o boom da construção passou à história e o dinheiro para saldar as contas não chega, explicando-se assim a crise.
do lado dos trabalhadores e sindicatos, a falta de independência das empresas em relação ao poder político, que as sustenta em grande parte, aliada ao ‘monstro’ do endividamento da região – que ronda os oito mil milhões de euros – , explicam a situação de crise. as verbas que chegam ao orçamento regional são desviadas para outras prioridades e é sempre o elo mais fraco que paga a crise, como se vê pelos anunciados despedimentos.
