porquê um romance histórico sobre inês de castro?
o paul auster diz que são os livros que nos apanham – e eu acho que é verdade. às vezes, uma história, ou uma personagem, começa a perseguir-nos e chegamos a um ponto em que não temos outro remédio senão escrever sobre ela. a inês de castro foi, para mim, um desses casos. desde 2005 que andava a pensar nisso: fui investigando, lendo sobre ela, fui-me interessando… ainda escrevi uns três romances pelo meio, até que houve um momento em que soube que, enquanto não fizesse este livro, não poderia fazer outro. não tive opção, tive mesmo de o escrever. foi muito engraçado, porque, embora o pensamento corrente varie muito de época para época, os sentimentos mantêm-se – e foi a trabalhar tanto com os pensamentos como com os sentimentos que criei esta inês de castro. que é uma inês muito própria, até porque fala na primeira pessoa, o que era, até agora, muito raro na literatura.
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esse carácter próprio é assumido logo no título do livro: minha querida inês.
é a minha querida inês, porque, de facto, eu apaixonei-me por ela. esta é uma grande história de amor – a maior da história de portugal e uma das maiores da europa. dá dez a zero ao romeu e julieta – porque há toda uma intriga política e de poder à volta da inês – e tem aquela característica maravilhosa dos argumentos mais interessantes, que é todas as personagens estarem contra todas, ao mesmo tempo que estão em conflito consigo próprias – ou seja, estão em conflito externo e interno. esta história dava um grande filme de hollywood, porque é perfeita e fecha bem. nesse sentido, explorei ao máximo tudo o que pudesse compô-la para ficar, do ponto de vista narrativo, mais suculenta.
até para colmatar a dificuldade de, pela primeira vez, estar a manipular uma trama que já toda a gente sabe como acaba…
exacto. era preciso condimentá-la, porque todas as pessoas sabem o que aconteceu a inês de castro. mas não conhecem a teia altamente complexa que levou à morte dela e acho que consegui explicar isso no livro. inês é executada por uma razão de estado: para afastar a influência negativa que os irmãos castro exerciam sobre d. pedro e que estava prestes a provocar uma grande crise política para portugal, pondo em risco a autonomia, a independência e a nacionalidade – se pedro de portugal fizesse a guerra com pedro de castela, as coisas iriam seguramente complicar-se. além disso, à luz daquilo que investiguei, penso que outra das razões pelas quais d. afonso iv mandou executar inês foi o facto de d. pedro nunca ter chegado a casar-se com ela.
a sua fixação por inês de castro vem de quando?
é difícil dizer, porque tratando-se de uma heroína romântica muito forte e havendo uma extensa literatura sobre ela, acho que sempre me acompanhou. lembro-me de visitar o túmulo em miúda e de ficar muito impressionada com a história, que é muito trágica, e até, de certo modo, épica. agora, enquanto ficcionista, reconstruí a minha inês e isso foi um trabalho muito interessante. só quando cheguei ao nono romance é que percebi que há várias constantes na minha obra. uma delas é a presença de mulheres fortes, e a minha inês é uma mulher forte, que desafiou o poder e que estava consciente daquilo que lhe estava a acontecer – não é nem a vítima que se cumpre como bode expiatório às mãos dos seus carrascos, nem a ruça que queria roubar o reino, como lhe chamavam na altura. o que eu quis foi aproveitar a história de inês de castro para voltar aos temas que as pessoas também encontram nos meus outros livros: o amor, o desamor, o entendimento, o desentendimento, os equívocos nas relações, a complexidade das estruturas familiares, os traumas que essas estruturas geram nos indivíduos e a forma como isso se reflecte ao longo da vida, pública ou privada.
na abertura dos sete capítulos do seu livro, correspondentes a cada um dos sete últimos dias da vida de inês, cita alguns dos grandes autores portugueses que trataram literariamente a mesma história – dos clássicos garcia de resende, camões ou antónio ferreira, aos mais contemporâneos, como agustina bessa-luís e nuno júdice. esta ‘concorrência’ de peso não a intimidou?
não, pelo contrário. todas as obras que li me ajudaram a construir a minha inês e houve livros extraordinariamente úteis. o mais útil de todos foi a a castro [de antónio ferreira, publicado em 1587], até porque, inconscientemente, acabei por criar uma estrutura de tragédia, ao fazer contenção de tempo e de espaço – não fiz três dias, como mandam as regras da tragédia clássica, mas fiz sete, e tudo se passa no paço de santa clara. o livro da agustina, adivinhas de pedro e inês, também me deu uma série de pistas novas sobre como poderia ter sido a relação deles. e pedro lembrando inês, do nuno júdice, é um dos meus livros preferidos. por isso, quando me dediquei a ler outros autores, senti-me muito acompanhada neste processo de recriação. acho que os escritores se acompanham e se ajudam sempre uns aos outros, mesmo sem o saberem. faz parte da nossa actividade e ainda bem que é assim.
