2011, ano das desgraças

Sábado, 12 de Novembro, do ano das desgraças de 2011. Os militares saíram pela primeira vez à rua, em tempo de paz, desfardados e desarmados, para protestar contra medidas governamentais.

eram muitos. manifestaram-se só entre eles e em silêncio.

muitos dos que estavam na rua eram velhos. e pretendiam ser um sinal para todos percebermos que não querem um golpe de estado – mas sim dizer, com o seu pesado silêncio, que a instituição a que pertencem está e estará sempre, sempre, ao lado do povo.

quem tem olhos para ver, que veja!

a comissão nacional justiça e paz organizou na fundação gulbenkian um dia de reflexão subordinado ao tema ‘europa, que futuro’.

muitos dos participantes eram católicos, informados e lúcidos, e o quadro que conseguiram produzir não tinha de todo cores luminosas. eram quase todos da idade dos militares que deram sinal na rua.

o poder político já não comanda a europa nem o mundo. o poder financeiro – os tão falados mercados –, sem rosto nem nome próprio, é que depõe e nomeia os homens e as mulheres que emprestam os seus rostos e os seus cérebros para nos convencerem de que os estados onde vivemos ainda são democracias políticas.

assim se vai prolongando a agonia, até que num qualquer ano da graça percebamos que o paradigma mudou – e procuremos juntos novas formas de nos organizarmos como humanos.

um frade capuchinho, o frei fernando ventura, vem pregando nos órgãos de comunicação social «a revolução dos pacíficos, porque se nos calarmos gritarão as pedras».

quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

no sábado, dia 12 de novembro, com 93 anos de vida totalmente vividos, foi a enterrar a aida magro.

mulher, comunista durante uma vida, foi uma das pessoas que mais me marcaram durante os 40 anos em que convivemos.

eu tinha pouco mais de 20 anos, ela tinha o marido (josé magro) preso por delito de opinião. esteve preso durante 23 anos intercalados. ela também esteve, mas muitos menos.

quando estava cá fora e não vivia na clandestinidade, lutava com militantes das mesmas causas, embora com opções e ideologias diferentes.

foi aí que a conheci – na comissão nacional de socorro aos presos políticos.

nas curtas noites daquele verão de 1972, nas caldas da rainha, quando as crianças filhas de presos políticos em peniche já dormiam, ela contava-nos, à são e a mim, com um cálice de ginjinha na frente, estórias da história da resistência na primeira pessoa.

contava-nos a dor de ter tido de entregar a única filha aos pais, para que a criassem em segurança.

as passagens fugazes pela pampulha para ver a filha de longe – quando ia ou vinha da escola.

a mudança constante de abrigo nos anos 40 e 50, e a capacidade de se lembrar que, na fuga, tinha de levar o pesado ferro de engomar e meia dúzia de carvões para as camisas do zé estarem sempre impecavelmente passadas quando ele saía à rua, para não levantar suspeitas.

perante as estórias mais tortuosas, o peso era aliviado pela sua gargalhada aberta (penso agora que era para não nos assustar demais).

do que eu conheci, experimentei e fantasiei, a aida magro foi uma pessoa com a qual eu também teria sido capaz de ser comunista. ela nunca o tentou, porém.

tinha um colo do tamanho do mundo e uma tolerância infinita pelos erros dos outros.

quando alguém partia a loiça, ela colava pacientemente os cacos. sem recriminações.

às vezes conseguia mesmo reparar uma peça antiga da vista alegre feita em bocadinhos – que o diga a vitória, se ainda o puder fazer.

senti afecto no velório. a família biológica e a família escolhida: o partido comunista. nalguns casos estavam na dupla função. tudo muito digno.

o comité central deve ter uma estufa de cravos vermelhos que produz as ditas flores durante o ano inteiro. eu não os consegui encontrar.

com a aida aprendi que se pode viver sem odiar ninguém, lutando toda a vida contra as práticas que usam e as ideias que defendem.

quando lhe disse «até já», era minha convicção que, seja onde for, nos vamos encontrar – de preferência com um cálice de ginja na frente.

catalinapestana@gmail.com