nos cartazes lê-se a palavra ‘kayip’ (desaparecido) e a data e o sítio em que aquelas caras foram vistas com vida pela última vez. são velhotes de bigode farfalhudo, adolescentes com acne, pais, filhos e irmãos. começa a nevar e a polícia aproxima-se por entre os flocos brancos. de repente, um estrondo, um minibus enfeixa-se na traseira de um autocarro grande, berros e sirenes. impávidos, dois dactilógrafos de ocasião continuam a escrever cartas em máquinas de escrever, para todos aqueles que querem queixar-se ao governo e não sabem como.
«vamos tentar de tudo para clarificar estes desaparecimentos», diz mehmet aktar, director da associação bar de diyarbakir (bar). «quem os matou, até já confessou, mas nem o primeiro-ministro nem o presidente fizeram nada». aktar refere-se à recente descoberta de 23 corpos numa vala comum nas instalações da polícia militar turca (jitim) na antiga prisão de diyarbakir. existe a firme convicção de que as ossadas encontradas pertencem a curdos capturados e assassinados pelas autoridades turcas nos anos 90. agora, as famílias dos desaparecidos querem fazer testes de adn para apurar se os cadáveres são dos seus parentes.
neuzat özgen, 44 anos, mostra a fotografia do pai, fikri özgen, desaparecido em 1997, aos 73 anos. numa manhã de fevereiro, fikri saiu de casa para ir à farmácia comprar medicamentos para uma bronquite. quatro agentes de segurança rodearam-no e enfiaram-no dentro de um renaul toros com vidros fumados. «os toros eram os carros usados pela jitim nos anos 90», conta neuzat. «foram eles que sequestraram o meu pai».
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a vida dos özgen foi completamente devastada pelo conflito sanguinário entre curdos e turcos, que dura desde o início dos anos 80. além do presumível assassínio do patriarca, a luta pela independência do curdistão levou dois irmãos de neuzat a aderir à guerrilha armada do pkk, organização considerada terrorista pela turquia, eua e união europeia. há anos que não sabe nada deles. por causa disso, também ele, empresário nos ramos de joalharia e construção, esteve preso durante 12 anos. «foi o preço que paguei por ser eu mesmo, pelas minhas convicções», diz. durante mais de uma década, sofreu torturas sucessivas: «deram-me choques eléctricos nos dedos, nas orelhas, nos lábios, na língua e no pénis, apertaram-me os testículos, puxaram-me o bigode até me arrancarem metade dele, penduravam-me de cabeça para baixo enquanto me espancavam. a pior era a tortura da roda. os guardas punham-nos todos nus atados a rodas e depois mandavam-nas uns para os outros».
entretanto, abdultadir aygan, um dos carrascos dos curdos nas prisões de diyarbakir, hoje radicado na suíça, confessou vários assassínios, entre os quais o de fikri. contudo, neuzat, as suas duas irmãs e a mãe continuam sem conseguir fazer justiça: «este conflito é um precipício sem fundo».
os restos mortais de fikri poderão estar na antiga prisão de diyarbakir, desmantelada em 2010. quase toda a cidade passou por lá, a cumprir prisão ou de visita aos prisioneiros. a polícia não deixa transpor uma barreira feita com pinos. «estão a examinar as ossadas», diz um agente. «acho que não são de prisioneiros. são ossos antigos, devem ter uns 200 anos».
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