O mundo sem telemóveis

Como era o mundo há 40 anos? Em 1973 os soldados americanos começavam a sair do Vietname, uns meses depois rebentava o escândalo de Watergate, que levaria à demissão de Nixon, as caixas multibanco (ATM) eram patenteadas nos EUA, Portugal aproximava-se do fim da ditadura e… não havia telemóveis. A primeira chamada foi feita justamente…

hoje é quase tão difícil conceber a vida sem telemóveis como o mundo sem carros ou sem televisão. há sete mil milhões deles activos e estão por toda a parte. qualquer que seja a direcção em que se olhe – no metro, na rua, no restaurante, no local de trabalho – lá se vê alguém a usar o pequeno aparelho.

e mesmo que não olhemos – é impossível escapar-lhes, pois tocam até nos locais mais inconvenientes (a propósito: por que serão sempre as pessoas com os toques mais feios e embaraçosos quem demora mais tempo a atender?).

embora tenha dificuldade em recuperar a memória de como era a vida antes da era do telemóvel, recordo-me bem do primeiro que apareceu na família. foi o nokia do meu pai, em 1993. tinha uma antena que se recolhia e teclas macias de borracha. custou uma fortuna e pesava uma tonelada, por isso lhe chamávamos ‘o tijolo’ – na verdade ainda chamamos, pois tornou-se uma espécie de relíquia doméstica.

na altura, um primo que era entendido no assunto dizia que os telemóveis não podiam ser mais pequenos, por causa da bateria.estava redondamente enganado – a verdade é que ao longo destes 20 anos eles foram diminuindo sensivelmente de tamanho, até caberem facilmente no bolso, tornando-se assim o sintoma perfeito de uma sociedade em rápido e permanente movimento.

e foram acumulando funções. otelemóvel tornou-se uma espécie de canivete suíço da tecnologia, no mesmo limbo entre o indispensável e o inútil. ele é máquina fotográfica, leitor de música, relógio, despertador, termómetro, consola de jogos e o diabo a quatro (às vezes quase nos esquecemos de que também serve para fazer chamadas).

quem tem filhos pequenos – até há estudos sobre isso – sabe bem que eles adoram estes aparelhos. porquê? talvez seja por causa da luz e das cores, talvez seja a sua qualidade táctil, com materiais macios, formas arredondadas e muitas teclas para carregar. ou talvez seja apenas porque os petizes gostam de estragar objectos caros.

em todo o caso, atrevo-me a dizer que, se o relógio é a jóia dos homens, o telemóvel tornou-se o brinquedo dos adultos.

há quem ache que ele promove a infantilização – para não dizer a imbecilização – das pessoas. até pode ser verdade. mas eu acho que, se as crianças de hoje, como se diz, crescem demasiado depressa, então é justo que os adultos tenham qualquer coisa de pueril. como quem recupera, fora de tempo, um pouco da infância perdida.

uma nota final para os sms, que têm metade da idade: foram inventados há 20 anos. quanto a mim, têm alguma da magia dos bilhetinhos que se trocavam antigamente, transformando cada telefone num pequeno marco do correio. e possuem outra qualidade admirável: não perturbam o silêncio.

jose.c.saraiva@sol.pt