Guimarães: a noite mais longa

“Esta é uma festa por que toda a gente anseia, para poder pegar na caixa e nos bombos que ficaram guardados um ano inteiro. Nesta noite, aproveita-se ao máximo para estar com os antigos colegas da escola”. É assim que Rui Castro, o Presidente da comissão organizadora, define as Festas Nicolinas.

este ano, coube-lhe a si e aos outros nove elementos que integram este grupo (todos eles estudantes das várias escolas secundárias vimaranenses) preparar tudo o que se prende com os festejos em honra do padroeiro dos estudantes, são nicolau. para os dez jovens, este é um papel que desempenham com orgulho. “ao fazer as festas ficamos para a história da cidade”, diz rui que, no ano passado, viu a roda do carro de bois esmagar-lhe uma unha do pé. “sacrifiquei o meu pé, mas ainda assim aguentei para ver o pinheiro ser erguido e chorei de dor e de alegria”.

depois de a cidade ter ganho o estatuto de património mundial da humanidade, também as festas nicolinas preparam a sua candidatura a património oral e imaterial. um reflexo do afinco e resistência das milhares de pessoas que ocupam, literalmente, todos os restaurantes da cidade, em animados jantares que se repetem ano após ano, com o mesmo grupo de ex-colegas de escola. em casa, num restaurante ou numa tasca, o menu é igual para todos: rojões e castanhas, bem regados com vinho da região. as caixas e os bombos são o acessório obrigatório nessa noite e, durante horas e horas, tocam todos ao mesmo ritmo o ‘toque nicolino’.

ao longo de cerca de dois quilómetros, o gigantesco mastro é arrastado por carroças de bois e tenta furar através da multidão. “as pessoas dizem que um bom pinheiro é quando acaba tarde”, explica o jovem presidente.

saber transmitido de geração em geração

“o toque nicolino é aprendido dos pais, que o aprenderam dos avós e assim até se perder no tempo”, explica miguel bastos, um velho nicolino e coordenador das danças de são nicolau – “um espectáculo teatral, onde se faz uma crítica à sociedade”. “desde o século xix que há registos de um toque. não temos certeza se seria o mesmo, já que não há gravações nem pautas daquele tempo. o toque nicolino é uma tradição oral”.

segundo miguel bastos, recua a 1645 o primeiro registo que se conhece destas celebrações, em guimarães. há notícia de que, em 1646, uma senhora perdoou os estudantes por lhe terem invadido a casa, mas o documento mostra que no ano anterior já havia festejos. em 1661 os estudantes do secundário pedem à colegiada (uma instituição religiosa da cidade) para fazer uma capela em homenagem ao seu padroeiro, são nicolau. para angariar dinheiro, organizam as hoje populares danças de são nicolau.

“estas festas são muito sentidas, porque em guimarães toda a gente é nicolina – hoje todos são estudantes do secundário, ao contrário do que acontecia há três séculos”, continua miguel bastos. “nos últimos 50 anos, os velhos nicolinos começaram a querer juntar-se aos novos, no dia do pinheiro, o que aumentou o número das pessoas nesta festa e a popularizou. há gente dos 18 anos aos 90 anos e muitos vimaranenses emigrados não resistem a visitar a terra”.

mas o pinheiro é apenas o primeiro festejo de uma semana de celebrações. seguem-se muitos outros, como o pregão, onde se faz uma crítica jocosa à cidade, em verso (é de 1817 o mais antigo de que há registo). as posses e o magusto, onde os estudantes partilham os alimentos que lhe são oferecidos. as maçãzinhas, o único número onde entram raparigas, e em que o estudante oferece à amada uma maçã na ponta de uma lança. as roubalheiras, em que os estudantes praticam actos de pilhagem – o saque será posteriormente exibido em praça pública. as danças nicolinas e o baile encerram os festejos.

uma das histórias mais populares das nicolinas, imortalizadas numa obra de raul brandão, ‘a farsa’, é contada ao sol por miguel bastos. “em 1822, na rua nova, actual egas moniz, morava o sapateiro joão cucúcio, que recebia os estudantes para lhes dar as posses. fazia um discurso em latim macarrónico e no fim mostrava sempre o cu aos estudantes. quando ele morreu, o seu filho manteve a tradição e depois o seu neto, até ao século xix. daí os estudantes dizerem: ‘oh cucúcio, mostra o cu’“.

apesar das temperaturas quase negativas do passado dia 29 (o dia mais frio do ano), as ruas estavam inundadas de gente. o toque nicolino e o vinho verde da região conseguiram fazer subir a temperatura. passava das quatro da madrugada quando o pinheiro foi erguido, marcando o início de uma semana de festejos. horas depois, já o dia ia alto, ainda era possível ouvir um ou outro bombo, com o ritmo descompassado, eco de uma noite animada. a mais longa para todos os vimaranenses.

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