Mirene

“Eras assim um terreno largo para onde se olhava, eu pelo menos gostava de olhar”. A primeira frase de Retrato dum amigo enquanto falo, de Eduarda Dionísio, foi a oração que me ocorreu quando a minha mãe me deu a notícia da morte da Mirene.

Nunca tinha pensado que esta frase de um livro que amo desde a adolescência fosse um poema e uma prece, uma barragem contra o maremoto da dor.

Através da Mirene, Maria Irene Crespo, que foi também quase minha mãe, cheguei ao deslumbramento da pintura, da fotografia e da literatura, da História e da intervenção cívica.

Das mãos dela recebi os primeiros contos infantis da Sophia e depois a Simone de Beauvoir e muitos e muitos livros sobre a história da emancipação da mulher.

Museu a museu, quadro a quadro, a Mirene explicou-me cada movimento artístico.

Nos anos quentes da revolução, voluntariou-se para criar maternidades na África portuguesa. Foi fundadora da Sociedade Portuguesa de Menopausa, uma médica experiente e dedicada capaz de detectar doenças pelo toque. E uma fotógrafa singularíssima. Ria-se quando lho dizia, contente e desconvencida: “Sou uma amadora da fotografia, uma amadora apaixonada, só isso”. Só isso é tudo.

Há uns anos lembrei-me de lhe pedir uns álbuns de fotografia que ela fizera durante os anos 70, à beira do Tejo, com cordames e cascos de navios, caixotes e pássaros dançando sobre árvores mortas. “Gostas assim tanto das fotografias da minha depressão?”, perguntou-me, divertida.

Estava eu então longe de imaginar que essas fotografias onde eu aprendera a ver a beleza das coisas destruídas ou abandonadas fossem exorcismo de um desgosto profundo. É essa a função da arte: transfigurar o sofrimento e fazer dele uma viagem para outro mundo.

A Mirene adorava viajar. Nunca me apercebi de que estivesse deprimida, nesses imensos fins-de-semana em que me vinha buscar para irmos ver barcos ou Monet, nadar ou passear pelos palácios de Sintra, sempre com a câmara fotográfica ao ombro. Tive então a ideia de escrever uma história a partir dessas fotografias, e de lhe apresentar o livro já quase pronto, com o contrato editorial estabelecido para que o assinasse.

Sabia que, se lhe dissesse que ia propor a uma editora esse projecto, não o aceitaria; não acreditava na força dessas fotografias que eram para ela uma outra forma de respiração.

Deixei-lhe apenas a possibilidade de fazer a selecção final das imagens, sem opção de rejeição do livro – que veio a chamar-se Carta a Uma Amiga e foi publicado pela Texto em 2005. A crítica elogiou muito a qualidade das fotografias; o sorriso dela perante esse louvor inesperado é uma das minhas mais gratas alegrias.

Não deixei palavras por lhe dizer. Mesmo que deixasse, ela sabia-as. Mirene lia-me sem necessidade de instrumentos ou mediações. Lia. Passou os últimos meses da sua vida a separar livros para oferecer à novíssima biblioteca feminista Ana de Castro Osório, em Belém, projecto de que lhe falei e que a entusiasmou. Lia.

Há dias comprei, por um-euro-um, uma edição sólida, bem prefaciada, de Os Fidalgos da Casa Mourisca, do esquecidíssimo Júlio Dinis.

Lembrei-me de uma outra amante de livros, analfabeta, à qual eu lia em voz alta. No hospital, essa leitora sem letras pediu-me que lhe lesse um livro com um final feliz, e foi em Júlio Dinis, morto tão cedo, que encontrei resposta a esse pedido.

Hoje, antes do telefonema, começara a escrever sobre finais felizes. A Mirene dir-me-ia que, apesar de tudo, escrevi.