A inegável atracção por este eterno sobrevivente significa que o país se reconhece no desprezo pela criação política. A direita atribuirá as culpas deste desprezo aos excessos ideológicos do período revolucionário; a esquerda, ao peso da ideologia aparentemente anti-ideológica de Salazar.
Uma análise serena verificará que, na realidade, os erros do pós-25 de Abril nasceram, também eles, de um analfabetismo político gritante. Os instruídos, que constituíam uma minoria, ou eram demasiado modestos (a educação conduz à reflexão e, por conseguinte, à dúvida) ou eram forçados à discrição.
A ignorância é não só arrogante mas, de um modo geral, industriosa. Os inteligentes, na candura do seu castelo, desdenham da capacidade multiplicadora da estupidez que, ao contrário da inteligência, tem tendência a ser espertíssima, e a usar o véu da moral como um mealheiro de prostíbulo.
A falta de ideias, formação, informação e seriedade no debate político tem arredado da intervenção pública pessoas de mérito. A conspiração da mediocridade, demasiadas vezes apoiada por uma comunicação social progressivamente desinteressada do pensamento, faminta de escândalos e vítimas fáceis, tem conduzido o povo à apatia.
A esgrima dos números e das folhas de excel já não tem qualquer efeito sobre o ânimo nacional; os jovens autênticos desinteressam-se da política, que só mobiliza os eternos videirinhos, nascidos com a idade do oportunismo, intemporal.
No lugar da discussão ideológica ergue-se, oca, a bravata pelo mando: o líder do Partido Socialista afirma que, quando for primeiro-ministro, abrirá os tribunais que o actual governo fechou; o Bloco de Esquerda e o PCP afirmam-se irredutíveis contra qualquer hipótese de acordo com o PS, orientados sempre e só para o quanto-pior-melhor, que rende votos. O Governo estrangula os dias dos velhos e os sonhos dos novos, mas não encontra pela frente uma contestação que aponte outro caminho, concreto e solidário.
Uma população descrente da acção política, intimidada à esquerda e à direita e incapaz de distinguir uma da outra, torna-se inerte, manhosa, dançando ao som da moralina dominante. A cobardia herdada cresce mais do que os juros da dívida; na farsa democrática em que tudo se equivale, o trabalho e a transparência são dizimados pela arma química da intriga.
A salvação não está na desistência da política, mas na sua recuperação do lodo em que mergulhou – não só em Portugal.
A série House of Cards (Casa da Jogatana), sobre os bastidores sórdidos do poder americano, mostra-nos a degradação atingida por essa actividade que deveria ser a arte do exercício da cidadania (outra palavra poluidíssima).
Que Obama adore essa ficção protagonizada por malfeitores profissionais, eis o que me espanta. Talvez acredite que se trata de uma história preventiva, feita de vasta imaginação. A mim, House of Cards causa-me o fascínio do horror. Reduzida ao jogo do mando que tudo justifica, a política não vale nada. O problema é que, sem ela, o mundo torna-se um lugar inabitável.
