A vulnerável economia russa

As sanções económicas à Rússia anunciadas pela UE e pelos EUA suscitaram sorrisos de descrença e até de troça em muita gente. De facto, parecem de pequena monta.

Compreende-se: um terço do gás natural e do petróleo consumidos na UE vem da Rússia. Substituir os fornecimentos russos por outros, como gás e petróleo dos EUA, levaria tempo e custaria dinheiro. A França quer vender material militar (helicópteros, nomeadamente) a Moscovo. A City londrina tem muito dinheiro de milionários russos e 68 empresas russas estão cotadas na Bolsa de Londres. Várias personalidades britânicas detêm cargos em empresas russas – como os lordes Mandelson, Owen e Myners, ex-ministros, e o académico lorde Skidelsky, ou ainda Sir Michael Peat, ex-secretário do Príncipe Carlos.

A principal oposição às sanções económicas à Rússia veio da Alemanha. O comércio entre a Rússia e a Alemanha atingiu em 2013 cerca de 76 mil milhões de euros, dando emprego a mais de 300 mil pessoas na RFA. Várias empresas alemãs do sector automóvel – Volkswagen, BMW, MAN, etc. – bem como mais de seis mil médias empresas germânicas têm fábricas na Rússia.

De resto, há um certo cepticismo quanto à eficácia de sanções económicas. Funcionaram quando, em 1956, o presidente Eisenhower ameaçou bloquear créditos ao Reino Unido, levando este país, a França e Israel a desistirem de tomar o canal do Suez ao Egipto. Mas o embargo dos EUA a Cuba, que dura há mais de meio século, revelou-se até contraproducente, ao permitir ao regime castrista atribuir todas as dificuldades económicas do país aos americanos. Em regra, os ditadores não se importam com os sofrimentos dos seus povos decorrentes de sanções externas, embora no caso do Irão estas possam ter ajudado a flexibilizar algumas posições de Teerão.

Mas as sanções formais não são o que mais interessa. O ambiente de crise e incerteza criado pelo simples facto de se falar nelas teve consequências: o rublo caiu e muito capital saiu da Rússia; as empresas e os bancos russos passaram a ter mais dificuldade em se financiar no exterior. Vários projectos de investimento directo estrangeiro na Rússia foram congelados. O Banco Mundial alertou para que a anexação da Crimeia pode levar a economia russa à recessão, mesmo sem sanções económicas. Num mundo globalizado este tipo de reacção dos mercados às incertezas é cada vez mais frequente.

Aliás, a dependência europeia do petróleo e do gás da Rússia também funciona ao contrário: os russos precisam do dinheiro dessas exportações, até porque pouco mais têm para vender no exterior. A grande vulnerabilidade da Rússia é a sua economia – como se viu quando do colapso do comunismo, não tendo entretanto melhorado. A economia russa cresceu há anos, com a subida do preço do petróleo. Hoje aproxima-se da estagnação.

Por isso a reacção trocista às sanções anunciadas talvez não se justifique. Claro que ninguém espera que Putin renuncie à anexação da Crimeia. Mas certamente agora pensará duas vezes antes de intervir no Leste da Ucrânia ou de suscitar problemas em países bálticos, membros da UE e da NATO, para ‘apoiar’ os russos que lá vivem.

Entretanto, as iniciativas agressivas da Rússia deram renovado sentido à NATO e à UE e podem impulsionar a parceria transatlântica. Algo que não agradará a Putin.