A televisão veio criar novas formas de divulgação do humor e apareceram intérpretes de outro tipo. Nos anos 60 surgiu Raul Solnado, que foi o comediante mais marcante da sua geração. Mas ao contrário de Vasco Santana ou António Silva, não era apenas um actor – era também um criador. Interpretava textos que ele próprio escrevia (ou adaptava). Entre estes, o mais genial foi, seguramente, A Guerra de 1908, que fez chorar até às lágrimas uma geração.
Solnado inaugurou um novo tipo de humor, mais próximo do que hoje se designa por stand up comedy, ou seja, um actor sozinho em palco a debitar piadas. É um género dificílimo que poucos humoristas aguentam.
A seguir a Solnado veio Nicolau Breyner.
Este era mais actor do que criador. Tinha um estilo mais revisteiro e popular do que Solnado, talvez na linha de Vasco Santana. Não praticava o humorismo solitário, antes gostava de se integrar num grupo. Sentia-se à vontade em programas do tipo sitcom ou em comédias burlescas. Personificava a imagem do ‘comediante’.
Depois de Nicolau veio Herman. Esta ‘transição’ foi dolorosa, pois Herman surgiu como um discípulo de Nicolau, fazendo com ele o Senhor Feliz e o Senhor Contente, mas a certa altura percebeu-se que ia ultrapassar o ‘padrinho’. Era a situação típica do aluno a superar inapelavelmente o professor. Herman tinha um humor inato. Aquilo que em Nicolau parecia às vezes feito com esforço, em Herman parecia leve e natural.
Herman José impôs-se de modo fulgurante – e as suas primeiras aparições foram verdadeiras explosões de talento. Foi o primeiro grande fenómeno de humor na TV, batendo Nicolau e mesmo Solnado, até por ser um humorista que nasceu para o espectáculo já na ‘era da televisão’ . E Herman sabia aproveitar ao máximo os meios que a TV punha ao dispor dos criadores, tendo feito programas inolvidáveis, como O Tal Canal, Herman Enciclopédia ou Humor de Perdição, e criando personagens inesquecíveis como Serafim Saudade, Diácono Remédios, Tony Silva ou Maximiana.
A certa altura, a sua popularidade era tão grande que remetia para a completa obscuridade todos os outros humoristas, sendo penoso olhar para o apagamento de Nicolau Breyner. Herman surgia como pau para toda a obra, requisitado para apresentar os shows mais importantes da RTP (como as galas e as noites de Natal e de fim de ano). Quando se queria um programa com audiência, não se pensava em mais nada: chamava-se Herman José para apresentar. Nenhum político recusou um convite seu – nem Cavaco Silva, quando estava no auge da carreira como primeiro-ministro e ninguém o imaginava num talk show.
A importância de Herman era tão grande que criou uma empresa e contratou alguns dos mais importantes comediantes da época (Vítor de Sousa, Ana Bola, Maria Vieira, etc.) para trabalharem com ele. Com Herman o humor tornou-se uma indústria. Apareceu em vários cartazes de rua a fazer publicidade e fez inúmeros sketches publicitários na TV e na rádio.
Mas tudo na vida tem ciclos, e também chegou o dia em que a estrela de Herman começou a empalidecer. Ele tinha sido a grande vedeta dos anos 80 – mas já não seria o protagonista indiscutível da década de 90. Nessa altura despontou um humorista de outro estilo, se assim se pode dizer, mas que se tornou uma referência das novas gerações em matéria de humor.
Falo de Miguel Esteves Cardoso. Ele não aparecia na TV (só apareceu mais tarde) mas assinava crónicas nos jornais que se tornaram verdadeiros objectos de culto. Uma dessas colunas, A Causa das Coisas, publicada semanalmente no Expresso, foi o seu auge. Os leitores riam a bom rir com as suas crónicas, mesmo com aquelas que não tinham graça nenhuma. Era tão popular que começou a ser designado apenas por MEC (como hoje se chama CR7 a Ronaldo).
MEC era, como foi dito, um humorista de tipo diferente dos outros. Dirigia-se a uma faixa mais intelectualizada, com mais pretensões. O facto de estar presente na Revista do Expresso – na época, um ícone da cultura vanguardista -, dava-lhe um estatuto intocável.
Quando MEC começou a apagar-se – ao mesmo tempo que Paulo Portas se impunha como motor do semanário O Independente, fundado por ambos -, houve um vazio. Então, Nicolau Breyner ressuscitou – já não como humorista mas como excelente actor. Depois surgiram programas como A Noite da Má-Língua e O Eixo do Mal, que promoviam a maledicência com humor. E a seguir apareceria Ricardo Araújo Pereira.
Tal como Esteves Cardoso, Araújo Pereira também se tornou um pouco o ícone de uma geração (dos que têm hoje à volta de 30 anos). Tem traços comuns com MEC, pois surgiu a escrever em revistas (hoje ainda escreve na Visão). Mas está mais perto de Herman no que respeita à presença televisiva e ao aproveitamento do humor como negócio: tem uma empresa, tem o seu grupo (uma espécie de ‘trupe de humoristas’, os Gato Fedorento), faz programas de TV, já tentou o talk show, faz há anos publicidade.
De certa forma, Araújo Pereira é uma mistura de MEC e de Herman – embora sem o êxito de MEC na imprensa e sem o êxito de Herman na TV; mas com muito maior presença do que este na área da publicidade.
Escrevi um dia que ele e a sua equipa se desgastariam com a excessiva exposição publicitária – e nessa questão ele demonstrou completa falta de sentido de humor, fazendo uma crítica despropositada a um livro meu.
Todos os humoristas de que falei ainda estão vivos, à excepção de Raul Solnado (que conheci pessoalmente e que um dia, estando ambos em Macau, me falou para o acompanhar à China, o que recusei, arrependendo-me mais tarde de ter perdido a oportunidade de o conhecer melhor).
Nicolau Breyner anda por aí e continua a trabalhar, já foi autarca (vereador em Serpa), é actor em filmes, apresenta talk shows; de ‘humorista gasto’ passou a actor experiente e com talento, recuperando um pouco a aura perdida.
Herman também ainda mexe, embora às vezes pareça uma daquelas glórias decadentes do cinema que andam de feira em feira, vivendo dos sucessos do passado.
MEC regressou igualmente, depois de doenças graves e curado de vícios perigosos, mas perdeu a frescura que fazia o seu encanto.
Quanto a Araújo Pereira, o ‘contemporâneo’, continua na crista da onda: faz programas de TV e rádio, faz anúncios, escreve.
Mas um dia destes aparecerá o humorista da próxima geração. Passaram à história os que deliraram com Solnado, os que se riram com Nicolau, os que endeusaram Herman, os que veneraram Esteves Cardoso – e passarão os que mitificam Araújo Pereira.
Porque cada geração tem necessidade de ter o seu humorista. O seu bobo e ao mesmo tempo o seu herói – que a faz rir, que a faz às vezes pensar, que dá corpo às suas críticas, aos seus anseios e a uma certa forma de estar no mundo. Mesmo que essa forma pareça disparatada a outros.
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