Na era pós-inflação

O receio de que possa vir aí uma deflação (descida continuada dos preços) voltou à Europa. Na Zona Euro a inflação foi de 0,7% em Fevereiro, baixando para 0,5% em Março (andava pelos 3% em 2011). Draghi disse que o BCE poderá tomar ‘medidas não convencionais’ para combater o risco de deflação, mas por enquanto…

Os malefícios da deflação são sobretudo dois. Os consumidores adiam comprar, à espera de que os preços baixem mais, o que estagna a economia. E torna a vida mais difícil para quem tem dívidas – caso, em Portugal, do Estado, das empresas e das famílias. Os devedores têm de pagar os empréstimos a um valor aquisitivo real superior ao vigente quando os contraíram, devido à descida dos preços. Inversamente, a inflação beneficia os devedores; por isso pode até ser usada para baixar o valor real das dívidas.

Em Portugal não há memória de uma deflação. Mas ela aconteceu na Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX nos EUA, e mais recentemente no Japão. A nossa experiência é de inflação, por isso temos dificuldade em conceber perigos deflacionistas.

A partir de um certo grau, a inflação tem igualmente consequências devastadoras. A híper-inflação de 1923 na Alemanha pulverizou as poupanças e foi um dos factores da ascensão do nazismo. Essa subida vertiginosa dos preços explica o horror que, ainda hoje, os alemães sentem perante a inflação. E temem os países do Sul porque os julgam financeiramente indisciplinados e complacentes com a inflação.

Em meados do séc. XX a inflação era vista com benevolência, sobretudo à esquerda, que a considerava um factor de crescimento económico e de criação de empregos. Mas Fernando Henrique Cardoso, quando presidente do Brasil, conseguiu travar a galopante inflação no seu país e com isso beneficiou sobretudo os pobres; a maioria dos não pobres tinha os seus salários indexados à taxa de inflação, o que protegia o seu poder de compra mas eternizava a subida dos preços. A partir daí, combater a inflação deixou de ser apenas de direita.

Por outro lado, com os choques petrolíferos de 1973 e 1979 surgiu um fenómeno novo: subida dos preços e, ao mesmo tempo, estagnação económica – era a chamada ‘estagflação’. A inflação já não servia para estimular a economia.

A inflação portuguesa posterior ao 25 de Abril foi influenciada pela alta do petróleo e pelo ciclo vicioso subida dos salários/perda de competitividade/desvalorização do escudo/encarecimento das importações/inflação/desvalorização, etc. E o Banco de Portugal podia então aumentar a moeda em circulação no país (fabricar moeda, se quisermos), a qual se depreciava, perdendo poder de compra. Mas Portugal já não tem moeda própria e o nosso banco central é o BCE.

Hoje o problema é uma inflação demasiado baixa, excepto em países como a Venezuela ou a Argentina, onde ela é elevada e preocupante. A globalização ajuda a conter a alta de preços, ao aumentar a concorrência internacional, sobretudo a proveniente de países de baixos salários. O antídoto contra a deflação é o crescimento económico. Falta saber como se chega lá.