Uma boa ideia – mas utópica?

Em Fevereiro de 2013 os Estados Unidos e a União Europeia decidiram iniciar negociações com vista a um acordo de liberalização comercial e de investimento. Não é tarefa fácil. Há dez anos Washington lançou um projecto de parceria com países da área do Pacífico, que ainda não se concretizou.

Apesar das dificuldades deste tipo de acordos, as negociações entre americanos e europeus foram avançando. As vantagens de um entendimento são muitas, mas a ideia nunca entusiasmou as opiniões públicas da UE e dos EUA. Vivemos num tempo de receio face ao comércio livre e a outras facetas da globalização, o que provoca reacções defensivas e proteccionistas.

Para Portugal uma parceria UE-EUA teria especiais benefícios. Para além de acrescidas oportunidades no mercado americano, que agora apenas absorve 4% das nossas exportações, a parceria reduziria o carácter periférico de Portugal, colocando o país no centro das relações económicas transatlânticas. Para os Açores, sobretudo, seria excelente.

Entretanto, os acontecimentos envolvendo a Rússia e a Ucrânia reavivaram o interesse americano pela Europa. E tornaram óbvias para os europeus as vantagens de um maior intercâmbio económico com os EUA, desde logo no abastecimento energético. Com a utilização intensiva do fracking (gás e petróleo extraídos através de perfurações em rochas de xisto), método rejeitado em vários países europeus por temor de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, os EUA voltam a ser um grande produtor energético.

A parceria transatlântica visa não só baixar direitos alfandegários nos dois blocos (que, em média, já são relativamente baixos) como reduzir barreiras não pautais: regras técnicas e burocráticas por alegados motivos de ambiente, de segurança financeira e sanitária e outros – que muitas vezes escondem proteccionismos (como se viu na construção do mercado único europeu); discriminações ‘patrióticas’ no acesso a concursos públicos; regulamentos muito diferentes entre as duas margens do Atlântico (no sector automóvel, por exemplo), etc.

Ora os EUA e a UE assumiram uma inteligente atitude de pragmatismo. Há pontos onde sabem ser impossível um acordo: os europeus não aceitarão alimentos geneticamente modificados nem carne com hormonas; como era de prever, a França excluiu o audiovisual das negociações, etc. Não se pretende uniformizar regulamentações, mas aproximá-las. E o eventual acordo terá características evolutivas – avança-se até onde for possível e a porta ficará aberta a progressos futuros.

Irá concretizar-se esta parceria transatlântica ou não passará de uma tentativa utópica? Os principais obstáculos são políticos. A integração europeia está em crise e os partidos eurocépticos sobem nas sondagens. O Parlamento Europeu e a Comissão Europeia vão ter novas caras, implicando largos meses de semi-paralisia.

Do lado americano há reticências no Congresso à parceria transatlântica. E não se trata apenas da habitual obstrução do Partido Republicano. Também há Democratas, como Henry Reed, líder da maioria democrática no Senado, que não querem dar a Obama um instrumento essencial para negociar: o compromisso de o Congresso se limitar a aprovar ou rejeitar o acordo, sem lhe introduzir alterações. Esperemos que Putin contribua involuntariamente para que esta boa ideia se concretize.