Em Junho do ano passado, ao fim de quatro meses de investigação, a GNR encontrou no andar de cima da vivenda, em Silves, em centenas de vasos espalhados por três divisões, 415 plantas de todos os tamanhos – as mais altas atingiam quase dois metros. “Cresciam três a quatro centímetros por dia”, conta ao SOL o tenente Pedro Fernandes, do destacamento de Silves. Tudo graças a um avançado sistema de iluminação e ventilação, que incluía 17 potentes lâmpadas de sódio ligadas a 20 transformadores, tubos de alumínio acoplados a ventoinhas e extracção de ar, medidores de ph (para a água), desumidificadores e até temporizadores que permitiam regular de forma automática os ciclos de dia e de noite.
Cada vez maiores e sofisticadas
Foram apreendidas quase 29 mil sementes de cannabis, 26 gramas de erva seca e haxixe suficiente para 28 mil doses. Os dois traficantes – um moldavo de 23 anos e um português de 24 -, que arrendaram de propósito a vivenda, não deixaram nada ao acaso. “Instalaram filtros de carbono nos tubos de ventilação para purificar o ar e, para não darem nas vistas, violaram o contador, criando uma ligação directa à rede pública”, recorda o oficial.
A Polícia tem detectado, como esta, estufas cada vez maiores e mais complexas. Sótãos, caves ou garagens, em apartamentos ou vivendas – todos os compartimentos de uma casa podem ser convertidos em unidades de produção. Nos últimos quatro anos, praticamente triplicaram as apreensões de pés de cannabis em espaços indoor: segundo dados adiantados ao SOL pela Polícia Judiciária (PJ) – que agrega toda a estatística relativa ao tráfico de droga -, em 2013, PJ, PSP e GNR apreenderam 5.390 plantas em 199 estufas, quando em 2010 foram apenas 1.849 e, no ano seguinte, 2.157.
“Este fenómeno, que ainda não tem comparação com o nível de produção em países como a Holanda, está mais facilitado com o manancial de informação disponível na internet e com a proliferação de lojas grow up que vendem, a preços mais viáveis, material para estufas”, explica José Ferreira, coordenador da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes.
Está tudo à distância de um clique. “Há vários sites (holandeses, austríacos, espanhóis) que vendem sementes, livros e até kits, por 400 ou 500 euros, com tendas térmicas e todo o tipo de equipamento, desde luzes a processadores de CO2, controladores de humidades e sistemas de rega”, corrobora o inspector-chefe António Morais, daquela unidade da PJ.
Mas se umas funcionam “sobretudo para consumo individual ou venda a amigos”, outras estufas são já de larga escala e exigem “milhares de euros” de investimento, refere o investigador: “Têm pelo menos três salas: uma onde as sementes germinam, outra onde se dá a maturação das plantas ao longo de duas a três semanas e outra, com condições mais intensas, onde permanecem mais quatro a cinco semanas até serem colhidas e secas”.
Em Junho de 2012, a PJ apreendeu, num apartamento na área da Grande Lisboa, dezenas de copos com sementes dentro de um armário e, numa sala contígua forrada a alumínio (isolante térmico), 48 pés de cannabis. O dono da casa, um português de 36 anos, tinha ainda uma balança de precisão e uma parafernália de instrumentos típicos de uma estufa caseira, incluindo filtros de carbono para neutralizar o odor.
Estudantes, operários e até farmacêuticos
No ano passado, foram detidas 202 pessoas por tráfico de cannabis nestas condições. A maioria foram homens, de nacionalidade portuguesa (há ainda alemães, brasileiros e cabo-verdianos, mas são raros) e idades entre 20 e 39 anos. “São sobretudo os mais jovens que fazem disto um negócio. Há pessoas mais velhas que o fazem para consumo”, observa António Morais.
De resto, há pessoas de todos os estratos sociais e profissões. Muitos, assegura a Polícia, são jovens universitários que fazem desta actividade uma fonte de rendimento. Em Julho deste ano, a PJ deteve dois universitários de Coimbra, de 21 e 27 anos, que mantinham uma razoável estufa em casa, com lâmpadas de grande potência e disjuntores. Os moinhos, as balanças de precisão e 140 doses de liamba confirmaram o negócio da venda.
Em 2012, outro universitário de Braga foi detido, depois de a PJ ter encontrado diversos vasos com pés de cannabis em garagens e arrecadações da sua casa. O estudante, de 29 anos, já tinha sido detido nesse mesmo ano pelo mesmo crime: tinha cultivado 300 pés de cannabis em garagens e armazéns.
Mas há outras surpresas nestes meandros. Já este ano, a PJ detectou, numa busca a casa de um farmacêutico, nos arredores de Lisboa, uma sofisticada estufa improvisada em grandes armários, com um sistema de rega gota-a-gota e tudo automatizado com temporizadores. O homem, com cerca de 30 anos, alegou que era para “consumo próprio”, mas uma balança digital levantou dúvidas aos investigadores.
“Há indivíduos com alguma capacidade financeira que vêem aqui uma oportunidade de negócio. Outros são ex-operários da construção civil que já consumiam e, entretanto, ficaram desempregados e viram nesta actividade uma fonte de rendimento que os leva a apurar os conhecimentos”, nota o tenente-coronel João Nortadas, do comando de Setúbal da GNR.
Redes de tráfico alugam moradias isoladas
Nos últimos cinco anos e até Julho de 2014, só na área desta força de segurança foram desmanteladas 347 estufas (muitas em quintais e terrenos baldios), o que correspondeu a mais de meia tonelada de haxixe.
E há casos em que por trás do negócio estão autênticas redes de tráfico. Em 2012, a GNR de Arcos de Valdevez travou um grupo de traficantes (11 portugueses, um turco e um brasileiro) que montaram um circuito 'industrial' em quatro moradias isoladas, entre Braga e Póvoa do Lanhoso, alugadas de propósito. Todos os quartos dos pisos superiores foram totalmente convertidos em estufas, com sistema de rega automática montado através das casas de banho.
“Eram totalmente autónomos. Tinham estudado o processo e os timings de maturação e recolha das plantas para conseguirem ter sempre produto disponível para vender”, explica fonte oficial da instituição. Foram apreendidos 763 pés de cannabis, sementes, dois quilos de haxixe e 45,85 gramas de cabeças de cannabis.
Já este ano, em Janeiro, a PSP desmantelou outra rede composta por seis portugueses, entre os 23 e os 41 anos, que vendiam liamba no Algarve, Santarém e Almeirim. Nas buscas a nove casas, foram recolhidas 147 plantas e vários utensílios, incluindo aquecedores, 25 mil doses de liamba e 53 mil doses de haxixe. Para a secagem das ervas recorriam a simples estendais.
Livros e quadros com anotações
Há outros, mais incautos, que são apanhados em plena rua. Em Maio deste ano, a PSP interceptou um jovem de 22 anos a vender liamba na zona da Cruz Quebrada (Oeiras). Na busca à casa, os agentes descobriram uma mini-estufa com quatro plantas em fase de crescimento alojada na parte inferior de uma secretária, lado a lado com computadores. O suspeito tinha ainda vários pacotes com sementes e 465 doses individuais de cannabis.
“Por vezes, durante buscas a casa de suspeitos relacionadas com outros crimes, encontramos livros sobre o cultivo desta planta, o que geralmente é indício de o produzirem eles próprios”, acrescenta João Nortadas.
Ao Laboratório de Polícia Científica da PJ chegam muitas vezes livros, revistas e até pequenos quadros de giz cheios de anotações.