Primeira indignidade natalícia: essas mensagens são impessoais; foram escritas numa central de anedotas (em saldo) e são enviadas para listas de contactos. Não há nada de mais contrário ao espírito natalício do que essa atitude publicitária.
Uma segunda versão, aparentemente mais astuta e ainda mais patética, é a da mensagem-que-faz-de-conta-que-é-pessoal: deixa cá convencer a Joana e a Maria e a Vera e mais as trinta fulanas que estão na minha agenda e das quais não sei nem quero saber, que estou a pensar em cada uma delas em particular, porque nunca se sabe se me podem vir a ser úteis. O texto diz «Querida/ Amiga/ espero que estejas bem e desejo-te, etc, etc.»
O divertido acontece quando a esperteza saloia que assim procede se engana, e envia às Marias as mensagens que eram para os Manuéis, e vice-versa.
Depois são os almoços e jantares de Natal entre antigos colegas que há décadas se esqueceram das respectivas existências, ou entre colegas actuais que passam o resto do ano a empreender estratégias de abate uns dos outros.
A intriga é, além da cortiça, a grande produção portuguesa; o Natal é o intervalo dessa novela contínua em que todos esbracejam para se manter à tona.
Mas o intervalo cheira a mofo e a falsidade. Há quem anuncie que vai visitar um amigo, porque é Natal.
Entre musgos e sinos, chega a coisa propriamente dita: a reunião de família, onde se juntam parentes desavindos ou praticamente desconhecidos aos quais, ainda por cima, há que presentear.
E a lista de presentes das criancinhas, composta por jogos e engenhocas acima das possibilidades de qualquer mortal que teime em viver apenas do trabalho honesto (que é aquele que conduz a penhoras efectivas por um mês de atraso nas contribuições para o fantasma do Estado Social).
Ora os desejos das crianças, segundo a cartilha contemporânea, não podem ser frustrados, sob pena de deixarem de gostar dos adultos e, o que é pior, perderem a neo-liberal auto-estima que tanta falta lhes há-de fazer quando tiverem de ir trabalhar para esse sítio exigente e rentável que é 'o estrangeiro'.
Outra obrigação natalícia é a de tratar dos pobrezinhos. Tira-se o coração da arca de cânfora onde fica guardado o resto do ano, não vão as traças chegar-lhe, e fazem-se pacotes de presentes para os que nada têm.
Há pessoas tão boas que até oferecem coisas novas.
Organizam-se ceias para os que têm fome, e as televisões vão confirmar que sim, está lá o bacalhauzinho, sim, estão felizes, sim, é Natal para todos.
Percebo as pessoas que odeiam o Natal: tornou-se demasiado parecido com uma campanha eleitoral.
Eu gosto do Natal porque o vejo exactamente da mesma forma que quando tinha cinco anos: a festa do nascimento de um homem bom, que enxotava os vendilhões, desprezava traidores e cobardes e não tinha medo de nada.
Redescubro em cada Natal esse exemplo de força e alegria.
Nunca me interessou perceber se Jesus era ou não filho de Deus – uma das coisas que aprendi com ele foi a não seleccionar as pessoas pelos nomes de família. Basta-me que tenha existido.