A decoração continua elegante, conjugando o moderno com o tradicional, o ambiente contemporâneo com a história do Chiado. Um aparador bem colorido é peça principal. Os biombos das janelas reforçam a privacidade, sem tirarem as vistas para fora. Está bem assegurada a ligação entre o passado e a actualidade. No meio, uma grande mesa comum (estas chamadas 'valas comuns' começam a estar de moda nos restaurantes modernos lisboetas) tem espaço suficiente para manter grupos separados por intervalos. Mas seria simpática a ideia de aproveitar para fomentar maiores convívios.
É de notar que já passaram por aqui, nos tempos em que o restaurante se chamava apenas Flores, chefes tão famosos como Sá Pessoa e Luís Rodrigues. Nesta nova fase, desapareceram os menus variados de almoço. Há apenas um, chamado Executivo, a 18,5 euros, de 2.ª a 6.ª, com um único prato principal e sobremesa (escolhidos diariamente pelo chefe), copo de vinho ou água. Em compensação, o resto da lista, reforçado na parte de entradas e petiscos (fica sempre possível uma petiscada), tornou-se mais barato. Há até menus compostos concretamente para picar (com duas ou três entradas, salada ou tarte, copo de vinho ou água, a 15 euros).
Há quem veja nesta nova fase do restaurante uma forma de evitar acomodamentos e avançar para inovações. Objectivamente, isso acontece. A simplicidade elegante da cozinha secunda muito bem a redecoração. Há delícias, como o corridinho de ovos mexidos e lascas de presunto e as pataniscas de bacalhau com cebolo e soja. E embora as propostas da lista variem muito, em função das épocas e das disponibilidades do mercado, surgem pratos praticamente fixos, a corresponder à muita saída: arroz de berbigão com chips de corvina; uma original empada de perdiz; leitão assado a baixa temperatura. E, nas entradas, cremes de castanhas e de sapateira, peixinhos da horta, ou lulas e camarões em alhinho. Outras hipóteses que por lá apareceram muito bem: caril thai de garoupa com camarão, perna de cabrito assada com alecrim, bochecha e costelinha de porco bísaro, risotto de cogumelos com queijo de Niza, ou um bitoque que vem intocado da lista anterior.
E depois há o dito hambúrguer do bairro, que se enraíza no famoso hambúrguer servido no pão, no bar de baixo, e no outro, lá em cima, com vistas soberbas para o Tejo. Vale a pena frequentar, neste Chiado cada vez mais cheio de bons sítios para comer.
Quem é Vasco Lello?
Vasco Lello, 34 anos, actual chefe do restaurante do Bairro Alto Hotel, é um cozinheiro que gosta de passear entre os clientes, às horas das refeições, e assistir em directo aos prazeres ou desprazeres gastronómicos que lhes proporciona.
Com o curso superior de cozinha da Escola de Hotelaria do Estoril, estagiou depois nos hotéis Pestana Palace de Lisboa, La Bacarolle em Genéve, um pequeno em Nyon, Suíça, e o Albatroz em Cascais, bem como no restaurante Bica do Sapato.
Já na carreira profissional, trabalhou no Terreiro do Paço e na Bica do Sapato. Passou ainda por hotéis como o Palácio de Seteais, Le Méridien e Pestana Palace.
Reteve como mestres os chefes Eduardo Mello (Le Méridien) e Aimé Barroyer (Pestana Palace).
A sua cozinha de autor caracteriza-se como sendo marcadamente portuguesa (utilizando os mais conhecidos produtos tradicionais) com influências do mundo, em especial do Norte de África e Ásia – e uma apresentação contemporânea. As raízes familiares são alentejanas, de Portalegre, e admite muitas influências por essa via. Mas lembra-se de morar toda a vida com os pais em Lisboa.
O gosto pela cozinha vem-lhe de família, onde pais e avós demonstravam qualidades. Por outro lado, sempre viveu próximo da hotelaria, pela profissão do pai (director de recursos humanos de hotéis).