Em Outubro de 2011 os credores perdoaram mais de metade da dívida grega. Mesmo assim, ela hoje vale 170% do PIB da Grécia.
Em 2011 dois terços da dívida soberana da Grécia estavam nas mãos de privados, sobretudo bancos. Os credores perderam com o perdão mais de 140 mil milhões de euros, o que não entusiasmou os investidores a comprarem dívida grega. O perdão foi um erro, que prejudicou a Grécia.
Agora é diferente. Quase toda a dívida pública grega actual é detida por organismos internacionais, como o FMI e o BCE (que estatutariamente não podem perdoar dívidas) e o Mecanismo Europeu de resgate, financiado pelos países do euro, que perderiam dinheiro com um novo perdão.
O Syriza afirma agora que não suspenderá unilateralmente o pagamento da sua dívida, mas quer renegociá-la e manter-se no euro. Um perdão parece impossível. Admito apenas, mas é improvável, que o Syriza consiga novos adiamentos nas maturidades dos empréstimos e baixas nos juros. O que implicará contrapartidas: não há assistência financeira sem condições, até porque a opinião pública alemã e de outros países não o aceitaria.
Ora contrapartidas significam, de uma maneira ou de outra, alguma austeridade – que é rejeitada pelo Syriza. Deixar cair a bandeira do fim da austeridade seria para este partido um suicídio político. Por isso o colunista do Financial Times Walter Munchau – aliás um severo crítico das posições alemãs – diz, e bem, que a reestruturação da dívida grega implica a saída da Grécia do euro.
O Governo grego resultante das próximas eleições precisará de obter milhares de milhões de euros de novos empréstimos, para pagar dívidas e financiar as funções básicas do Estado. Se não houver um programa de ajustamento, o BCE suspenderá o crédito à banca grega, levando-a ao colapso. Ora nos últimos meses os mercados fecharam-se à dívida grega, que, a dez anos, no mercado secundário tem um juro virtual insustentável (superior a 10%).
Talvez o BCE apresente, finalmente, medidas eficazes de estímulo à economia europeia (embora seja mais provável um pacote de 'meias medidas', por causa da oposição dos alemães). Representaria algum alívio para os gregos, mas não o suficiente para evitarem a saída do euro, caso o Syriza governe. Saída que irá trazer à Grécia uma austeridade pior ainda do que a sofrida nos últimos cinco anos.
Quanto aos reflexos para Portugal: terá diminuído o 'risco sistémico' de contágio a outros países de uma saída da Grécia do euro. Mas ninguém garante que, a seguir, a especulação nos mercados não caia sobre Portugal, apostando na nossa saída. Algo que só uma intervenção em força do BCE, comprando dívida soberana portuguesa, poderá impedir. Mas haverá essa intervenção?…
A crise de fundo do euro só se resolve com mais integração. Só que esta é rejeitada pelas opiniões públicas europeias. Uma economia estagnada e uma crescente hostilidade ao projecto europeu não ajudam. Cuidado com as ilusões.