A flor na lapela

Aquando da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Patrick Modiano, criou-se um escândalo internacional porque a ministra da Cultura de França não soube dizer, numa entrevista, nenhum título do autor premiado – e, pior, admitiu «ler pouco». 

Aposto que, se tivessem dado o Nobel a Milan Kundera, pelo menos a ministra havia de se lembrar de A Insustentável Leveza do Ser, mas isso não vem ao caso. 
Sucederam-se as desculpas, que são sempre má política; no lugar dela, eu teria simplesmente retorquido ao entrevistador: «E você, diga-me lá de que livro dele gostou mais e porquê, para ver se eu aprendo». 
Mas de respostas prontas e treinadores de bancada estava o inferno cheio, antes de ser invadido pela equipa do ISIS e da Al Qaeda. 

Não quero saber o que um ministro lê. Alguém pergunta ao ministro da Economia quantos livros dos Nobéis da área já leu? E provavelmente até seria mais relevante. 
A um ministro exige-se que saiba ministrar – isto é, gerir a sua área. 

Não se exige ao ministro da Saúde que saiba especificamente de medicina, nem ao ministro da Defesa que saiba disparar. Mas o da Cultura tem de armar em intelectual, para dar o exemplo. Porque a cultura, como a educação, são territórios de exemplaridade, ou seja, de exibição social. Enquanto for esta a ideologia dominante, a cultura não passará da eterna flor na lapela. Flor (Fleur) é por acaso o nome da ministra francesa.

Sucede que o orçamento da França para a cultura é de 7 bilhões de euros. 

E neste país, além do agora mundialmente famoso Charlie Hebdo, existem duas revistas mensais exclusivamente dedicadas aos livros. 
A edição de Fevereiro de uma delas – Le Magazine Littéraire –  traz uma entrevista de fundo com a ministra, onde a pobre Fleur Pellerin é confrontada com um inquérito cerrado sobre obras e autores e criticada por ter «passado a mensagem de que ler não é importante». 
Infelizmente, a sua atitude é a da tradicional menina que aprendeu a lição e dá a mão à palmatória; aplicada, enumera todos os autores que a impressionaram, reitera a importância central da leitura na formação dos jovens, bla bla. Fotografam-na de corpo inteiro e olhos no chão, uma florzinha murcha de vergonha. Não fariam isto a nenhum ministro nem eles deixariam! Hélàs, aqui é que bate o ponto. 
  
Ler é importante, mas a ministra da Cultura não é um anúncio editorial: disse que agora lê sobretudo dossiês e relatórios, o que me parece louvável, não só pela sinceridade – também um valor a promover, ou já não? – como pelo profissionalismo. 
Mas às tantas perguntam-lhe: para que serve um ministro da Cultura? 
Pellerin refere, e bem, a multiplicidade de temas em que é necessária a intervenção pública, da recuperação e preservação do património à protecção dos direitos de autor (em Portugal agora espezinhados e definidos pelos funcionários das Finanças) e à resolução dos problemas de 'intermitência' em vários sectores artísticos. 

Só lhe faltou rematar dizendo que o ministro da Cultura serve para que, um dia, nenhum jornalista ouse interrogar-se sobre a necessidade deste Ministério. 
A utilidade dos outros Ministérios nunca é posta em causa – e há-os para todos os gostos. A França tem, por exemplo, um Ministério da Cidade, da Juventude e dos Desportos. Um dia perceber-se-á que a Cultura é, para começar, a grande arma de combate ao terrorismo. Mas esse dia está longe, em França como em Portugal.