A Grécia entrou para a CEE em 1981, cinco anos antes de Portugal e Espanha, pela mão do Presidente francês Giscard d'Estaing, que quis ajudar o correligionário Karamanlis, então primeiro-ministro grego. Nos anos seguintes o comportamento dos gregos nos órgãos comunitários não foi propriamente exemplar, levando Bruxelas a recear que Portugal repetisse a atitude grega. Receio felizmente desmentido.
O programa de ajustamento imposto à Grécia pela troika foi brutal e punitivo, além de ter demorado meses até Merkel lhe dar luz verde. Mas as distorções na economia grega eram, e são, de tal ordem, assim como a incapacidade de Atenas para avançar com medidas correctivas (reduzir a fuga aos impostos ou privatizar empresas, por exemplo), que as críticas aos excessos de austeridade da troika não encontraram suficiente eco nas instâncias europeias e no FMI.
A Grécia quer ficar no euro, mas sem cumprir uma série de compromissos assumidos. A UE também gostaria de não abrir o precedente de um Estado membro abandonar a moeda única. Só que vários países da UE – Alemanha, Áustria, Finlândia, Holanda, Estónia, etc. – não se mostram disponíveis para emprestarem mais dinheiro à Grécia nem para um segundo perdão.
As nuvens no horizonte do euro não se limitam à Grécia. As medidas finalmente anunciadas pelo BCE há uma semana foram positivas e corajosas. Mas a violenta reacção que suscitaram na Alemanha leva a temer que este país ponha em causa manter-se ele próprio na zona euro. Seria o fim da moeda única.
Sobre as medidas do BCE, o Bild, o jornal alemão de maior tiragem, publicou na sua primeira página em letras enormes a pergunta: «O que vai acontecer ao meu dinheiro?». Altos dirigentes políticos da democracia-cristã mostraram o seu desagrado face às decisões anunciadas por Draghi. Embora mais contida, a chanceler Merkel também torceu o nariz. E o Tribunal Constitucional alemão poderá anular a participação financeira da Alemanha no programa de Draghi, tirando-lhe toda a força.
A hostilidade alemã acontece apesar de uma concessão que Draghi teve que fazer a Berlim: colocar nos bancos centrais dos países emissores de dívida 80% dos riscos de não pagamento da dívida comprada pelo BCE. Houve quem saudasse a 'comunitarização' dos restantes 20%. Mas, de facto, isto representa um retrocesso: há um ano o BCE detinha perto de 20 mil milhões de euros de dívida pública portuguesa, assumindo os riscos na totalidade. Além de agravar a fragmentação da zona euro, esta repartição de riscos dá menos segurança aos investidores na compra de dívida portuguesa, tornando-a naturalmente menos atractiva.
Entretanto, aumentam as probabilidades de a Grã-Bretanha abandonar a UE depois de um referendo, crescem as forças políticas anti-UE (com destaque para Marine Le Pen em França), agudizam-se as incertezas sobre a Grécia e a moeda única, e a economia da zona euro estagna. Isto, sem falar da ameaça da Rússia, face a uma UE impotente. A integração europeia está no limiar de uma grave crise, que não será de crescimento.