Aguarda-se que a Reserva Federal (o banco central americano) elimine medidas monetárias expansionistas, que aliás tem vindo a reduzir (como o quantitative easing). Mas a Fed tem sido prudente nesse regresso à normalidade, o qual se arrisca a desviar poupanças de todo o mundo para aplicações nos EUA, ao subir os juros americanos.
Por cá, os juros baixos têm beneficiado muitos portugueses que compraram casa com empréstimos hipotecários – um alívio considerável nestes anos de austeridade. A Euribor, a taxa de referência da maioria desses empréstimos, até tende para terreno negativo.
Após décadas em que o problema era a subida dos preços, a ameaça passou a ser a inversa: a deflação, descida geral e continuada dos preços. Situação que se verificou na Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX e, mais recentemente, no Japão. A deflação adia compras (à espera de que o preço desça ainda mais) e torna as dívidas mais pesadas, porque o poder real de compra das verbas envolvidas aumenta. Pelo contrário, a inflação reduziu o valor real de muitas dívidas públicas e privadas nas décadas seguintes ao fim da II Guerra Mundial.
Nós, portugueses, tivemos alta inflação entre 1974 e a década de 90 – o que deu jeito aos políticos na redução do valor real dos salários, para recuperar competitividade. Estes subiam 15 ou 20%, mas a inflação de 25 ou 30% tornava essas subidas em descidas reais, só que as pessoas não se davam conta. Agora, sem essa ilusão monetária, num país altamente endividado como o nosso – no Estado, nas empresas, nas famílias – alguma inflação ajudaria.
Os juros baixos não estimulam a poupança, pelo que tem sido criticada a queda dos juros nos Certificados de Aforro e do Tesouro. E por ser preferível ter grande parte da dívida do Estado na mão de nacionais (como acontece em Itália) do que de estrangeiros.
Mas importa ter em conta alguns factos. Primeiro, nos certificados subscritos até ao fim de Janeiro os juros não mudaram – as novas taxas apenas se aplicam às subscrições realizadas depois disso. As remunerações pagas pelo Estado aos Certificados de Aforro e do Tesouro antes subscritos são superiores ao juros do mercado. Ou seja, nós, contribuintes, perdemos dinheiro com esses juros generosos. Ora, o Estado tem obrigação de zelar pelo dinheiro que é de todos.
Em segundo lugar, a descida dos preços sobe o valor real do capital financeiro. E um juro de 1 ou 2% com inflação negativa, como temos em Portugal há meses, proporciona um rendimento real que não existiria se os preços estivessem a subir.
A poupança das famílias será afectada pelas novas taxas da dívida pública no retalho? Alguma coisa será, mas os portugueses já mostraram uma racionalidade e uma capacidade nesta matéria que não se encontram no Estado nem nas empresas. No auge da euforia consumista, em 2008, a poupança das famílias desceu para pouco mais de 5% do seu rendimento disponível. Depois este rendimento baixou – apesar disso a taxa da poupança das famílias duplicou.