Contra o coração

Aos que andam deslumbrados porque este ano há um português numa equipa técnica de um filme oscarizado, recomendo a leitura de Novas Cartas Portuguesas entre Portugal e o Mundo, com organização de Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas. 

Decerto ficarão consolados por descobrirem que, já nos idos de 70 do século passado, um livro português se tornou um caso internacional, com tradução e manifestações de defesa em várias partes do mundo. 

Trata-se de Novas Cartas Portuguesas, uma obra inclassificável de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, composta por ensaios, poemas, cartas, contos, textos poderosíssimos sobre sexo, violência, discriminação e paixão. Textos políticos e de uma beleza e inovação avassaladoras, que continuam a surpreender e a criar novos leitores. As 'três Marias' (como ficaram conhecidas) foram levadas a tribunal acusadas de 'obscenidade' e interrogadas separadamente – para que se denunciassem mutuamente, o que nunca fizeram, tal como nunca revelaram a autoria singular de cada um dos textos. 

Estética e eticamente, as Novas Cartas Portuguesas continuam inultrapassáveis. 

As três autoras continuaram os seus percursos na literatura – uma delas, Maria Velho da Costa, foi já consagrada com o Prémio Camões, que tarda em ser atribuído a Maria Teresa Horta, autora de uma vasta e originalíssima obra poética, estranhamente silenciada por antologias sucessivas e todos os prémios de poesia (e são muitos, neste pequeno país). 

Creio que esse silenciamento se deve ao tema central da sua poesia: o erotismo. Maria Teresa Horta louva o corpo masculino e o prazer feminino com um desassombro ainda hoje, pelos vistos, considerado escandaloso. Além de que não se esconde no kitsch das palavras-biombo: não há 'mastros' nem 'ceptros' nos seus poemas. Nem os chicotes e a parafernália circense agora em moda na infra-literatura e na pornografia dos pobrezinhos de espírito. 

As mulheres continuam confinadas às paredes do preconceito e a deixarem-se empurrar para o cantinho, de modo a não incomodarem ninguém. 

As mulheres continuam a incomodar-se com o sucesso das outras mulheres e a morderem-se umas às outras, pensando que assim chegarão mais longe: vêem que o espaço de poder que lhes é dado é curto, e desatam a espernear, a barafustar ou a torpedear as outras pela calada. 

Nem todas são assim: 'as mulheres' não existem, claro. Nem 'os homens', felizmente. Mas há ainda 'modelos' demasiado persistentes, apesar da sua patética ineficácia – e do fantástico exemplo das Novas Cartas Portuguesas.

O mote do Dia da Mulher serve para infindáveis ciclos disto e daquilo 'no feminino': ninguém percebe que a arte digna desse nome ultrapassa os géneros? Não seria ridículo organizarmos ciclos sobre o cinema e a literatura 'no masculino'? 

Dia da Mulher, para mim, seria aquele que trouxesse a notícia da tradução para inglês de um – pelo menos um! – romance de Agustina Bessa-Luís, à semelhança do que já aconteceu a vários jovens escritores portugueses. Mas quando Agustina dizia «posso dizer que escrevo bem, como um carpinteiro diria das mesas que faz», chamavam-lhe arrogante. Um escritor que diga que escreve com a mão de Deus é, evidentemente, um iluminado. 

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