Sem grandes títulos académicos, o saber de Silva Lopes ultrapassava o de muitos outros, com mais títulos. Tinha a paixão dos livros sobre temas económicos e não só. Antes do 25 de Abril, em várias viagens ao estrangeiro em que o acompanhei, vi-o comprar dezenas de livros, que em Portugal eram difíceis de encontrar.
A curiosidade intelectual de Silva Lopes era acompanhada de uma grande frontalidade – dizia o que pensava, ainda que tal não lhe conviesse pessoal, profissional ou politicamente. Por exemplo, defendeu cortes nas pensões mais altas, que a ele o atingiriam. Ou, anos antes de a troika vir para Portugal, afirmava-se publicamente angustiado com o que aconteceria se os credores deixassem de financiar o nosso défice externo. Défice que alguns economistas consideravam irrelevante numa união monetária como a zona euro, onde tínhamos entrado, o que sugeria não haver aí dificuldades. Viu-se…
O que é ainda mais raro, Silva Lopes aliava a honestidade intelectual à capacidade de ouvir e se interessar por opiniões diferentes das suas – e por vezes até acabava por concordar com algumas delas, sem problemas.
Como qualquer pessoa, por mais brilhante que seja, Silva Lopes tinha um ponto fraco: compreendia mal a política. Daí que tenha sido deputado do PRD. E que, antes disso, em Março de 1975, tendo proposto legislação para intervencionar a banca, afinal aceitasse a sua nacionalização, imposta pelos militares próximos dos comunistas e da extrema-esquerda. Silva Lopes viu na nacionalização vantagens económicas, como travar a fuga de capitais. Só que os bancos foram nacionalizados, não por razões económicas, mas essencialmente por motivos políticos – era um passo para a colectivização do país, que o 25 de Novembro iria travar, depois de outras nacionalizações em larga escala.
Sendo um grande economista, Silva Lopes sabia falar e escrever para não economistas. Isso tinha a ver com o seu carácter simples, avesso a quaisquer vaidades ou ostentações. Recordo-me de, quando foi para administrador da Caixa Geral de Depósitos, em 1969, se incomodar com o luxo (pelo menos aparente…) do seu gabinete, então no Calhariz. E o seu sentido de humor levava-o a não se tomar demasiado a sério, uma forma superior de cultura.
No fundo, Silva Lopes possuía um forte sentido ético e social, que nunca desligou da teoria económica. Por isso ele queria ver o mundo livre dos offshores. «Se fosse Deus, acabava com os paraísos fiscais», terá um dia dito. Por isso ficou chocado com as tropelias financeiras e bancárias cometidas durante os anos que levaram à crise do subprime e ao pânico após a falência do banco de investimento Lehman Brothers. Por isso o incomodavam as crescentes desigualdades económicas.
Era um homem bom e sábio, que deu muito a Portugal sob diversos regimes políticos, mas que ainda poderia ter dado mais, se o país o tivesse ouvido.