Imparáveis aos noventa

Mário Soares: a política a tempo inteiro

Há um hábito de que Mário Soares não abdica: ver o mar. Amante da natureza, o ex-Presidente da República faz questão de ir quase todos os dias, de preferência pela manhã, até à linha de Cascais ou para a Costa de Caparica só para olhar o Atlântico.

Aos 90 anos, o fundador do Partido Socialista não fica um único dia fechado em casa. É a partir da Fundação Mário Soares, mesmo em frente à Assembleia da República, que Soares continua a fazer política. Por exemplo, recebendo os embaixadores acreditados em Lisboa que lhe pedem reuniões, mas também os protagonistas da vida política nacional e internacional. Um deles foi o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, que numa passagem por Lisboa em 2013 solicitou um encontro com o socialista.

Soares fica na Fundação até por volta das 18 horas. Enquanto está sozinho, passa a pente fino o que se publica na imprensa, do país e do mundo, e escreve os seus artigos de opinião, como a crónica semanal para o Diário de Notícias. Quando não tem almoços de trabalho – Soares está sempre a trabalhar, diz quem convive com ele – vai almoçar a casa.

O histórico socialista faz questão de jantar, sempre que pode, com Maria Barroso, que acaba de celebrar 90 anos, e com quem é casado há 66. A ex-primeira-dama (1986-1996) sempre teve – e mantém – a sua própria agenda pública. As presidências dos conselhos de administração da Fundação Pro-Dignitate e da Fundação Aristides Sousa Mendes ocupam-lhe muitas horas.

Maria Barroso acorda cedo, entre as 6h30 e as 7h; Soares acorda um pouco depois e os dois tomam o pequeno-almoço em casa, rigorosamente às 9h. Aos domingos, almoçam com a família: os filhos João e Isabel e os netos.

Os encontros familiares são religiosamente cumpridos e só foram interrompidos no início de 2013, quando Mário Soares foi internado na sequência de uma encefalite. Depois da recuperação ficaram algumas limitações, sobretudo no que diz respeito à mobilidade. Mas a doença não o inibe de percorrer longas distâncias de carro, como quando vai visitar José Sócrates ao Estabelecimento Prisional de Évora. Estas visitas ao ex-primeiro-ministro socialista reflectem uma marca que construiu ao longo dos anos: nunca larga um amigo, seja em que circunstâncias for, garantem os amigos de Soares.

Dono de uma memória invulgar, nenhum dos seus próximos imagina ver Mário Soares longe da vida política e impossibilitado de exercer a sua influência. Depois do surpreendente avanço como candidato à Presidência da República, em 2006, com 82 anos, tudo se pode esperar de um homem que mantém inabalável a sua vitalidade política. Apoiante de primeira hora da candidatura de António Sampaio da Nóvoa nas presidenciais do próximo ano, já há quem aposte que o ex-líder do PS não irá perder esta oportunidade para voltar aos banhos de multidão de que tanto gosta. “Soares é fixe e tem 90 anos”, disse a 19 de Abril no Porto, entre centenas de militantes socialistas, quando interveio na festa dos 42 anos da fundação do PS, no Porto.

Camacho Vieira: ‘Se recupero da perna, ninguém me pára’

Augusto Camacho Vieira, que completará 91 anos a 25 de Novembro, mostra orgulhosamente as mãos. “Está a ver? Estão quietinhas. Não tremem”. O especialista em medicina e traumatologia desportiva recebe-nos no seu consultório, onde às terças e quintas-feiras atende os pacientes que o procuram para fazer o diagnóstico. “Tenho muitas saudades de ir para o hospital, de operar. Foram 52 anos a acordar preocupado porque ia operar”, confessa. Nas paredes da sala, num rés-do-chão da Rua Castilho, estão pendurados os diplomas de excelência, distinções e homenagens. “Levei a minha vida profissional muito a sério. Costumo dizer que sepultei-me nos hospitais. Passava lá muitas horas. Agora estou mais descansadinho. Mas não deixo de trabalhar”.

Durante 38 anos, Camacho Vieira esteve à frente dos departamentos médicos da Selecção Nacional de futebol e do Belenenses. Hoje é médico honorário da equipa das Quinas e há dois anos que acompanha o voleibol feminino do clube do Restelo. “As atletas fazem coisas que nunca vi no futebol e não ganham lesões. Fico encantado com aquilo”. Sempre que aos fins-de-semana há jogos fora de Lisboa, o médico acompanha as atletas. “Lá se vão embora os fins-de-semana”. Nada disso o aborrece, porém. Camacho Vieira habituou-se a percorrer o país (e o mundo), sempre por causa da medicina e do futebol: seja para operar, para acompanhar as equipas ou para participar em conferências.

O ‘médico da Selecção’, como ficará para sempre conhecido, nem quer ouvir falar em retirar-se. “Tenho uma vontade enorme de continuar a viver. Essa vontade está dentro de mim. Se recupero do problema da perna, ninguém me pára”, garante. Nos próximos dias vai “finalmente” investir no recobro de uma lesão provocada por três quedas. “Da vez que caí num centro comercial em Coimbra as pessoas começaram aos gritos. Olhei para aquilo e disse: ‘Tudo calado. Eu sou ortopedista’”, recorda, entre sorrisos. A reabilitação não lhe vai fazer alterar a rotina, garante, até porque passa bastante tempo sozinho em casa (o médico não tem filhos e a mulher já faleceu). “Nunca dou pelas horas em que estou sozinho”.

Camacho Vieira acorda rigorosamente às 9 horas e procura ter uma agenda que o obrigue a sair de casa todos os dias. Além das idas ao consultório, às quartas-feiras está no Restelo. Quase todos os dias almoça com amigos. Chega aos encontros pelo seu próprio pé. “Ainda me sinto com capacidade de conduzir”. Este mês vai a Coimbra participar no aniversário da República onde estudou. “Vou no Alfa. É rápido e mais barato”.

A memória dos tempos ali passados durante a licenciatura, terminada em 1953, pairam sobre cada conversa. “As recordações são o que ainda me faz viver”, disse recentemente ao receber uma homenagem na cidade do Mondego, onde conviveu com Manuel Alegre e Zeca Afonso. As memórias deste tempo poderão ser partilhadas num livro que anda a escrever. “Quem entende só da sua área, nem da sua área entende”, diz-nos.

Talvez tenha sido este o princípio que norteou outra grande paixão: o fado. Camacho Vieira tem vários álbuns editados, o último dos quais gravado em 2004, com temas musicados por si. Em Dezembro, cantou na Casa do Alentejo, num jantar de Natal. “Foi uma alegria enorme, enorme. A minha vida artística sempre funcionou como umas férias espirituais”, recorda. Talvez por isso não se estranhar que ao receber, em Janeiro, a medalha de mérito na gala dos 100 anos da Federação Portuguesa de Futebol, tenha terminado o seu agradecimento citando um fado cantado por Maria da Fé: ‘Valeu a Pena’. 

ricardo.rego@sol.pt