Devia haver ‘regras transparentes’ para o relacionamento entre jornalistas e políticos

O ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional defendeu na quarta-feira à noite que os diretores dos meios de comunicação social deveriam criar um conjunto de regras transparentes sobre a forma como os políticos e os jornalistas se devem relacionar.

"Não conheço nenhum jornalismo que tenha tanta dependência do 'off' [em que a fonte não é citada] como Portugal", afirmou Miguel Poiares Maduro no quarto debate do ciclo de Conversas sem Gravata promovido pelo Sindicato de Jornalistas.

"Devíamos premiar os políticos disponíveis para falar em 'on'", no entanto "um político que se resguarda acaba por ser mais privilegiado. Em Portugal, esta cultura de proximidade sem transparência facilita muito a confusão entre uma reclamação aceitável da pressão", considerou.

Por isso, defendeu que à semelhança do que aconteceu com a lei sobre a cobertura eleitoral, em que houve uma tomada de posição conjunta dos diretores editoriais sobre o tema, tal também deveria acontecer nesta área.

Os diretores de media "deveriam assumir um conjunto de regras e torná-las transparentes sobre a forma como os políticos e os jornalistas se devem relacionar", afirmou.

Considerando que "os jornalistas são os editores da democracia", o governante adiantou que estes "determinam a agenda pública, determinam as informações que as pessoas têm" e dessa forma "condicionam o debate público e o debate político em geral, mas também influenciam a cultura política".

"Um dos problemas da nossa cultura política é ser muito pouco disponível pra o compromisso. Acho que parte dessa razão é porque um político que está disponível para o compromisso não é valorizado, se alguém chega a um acordo isso tem muito pouca cobertura mediática", afirmou. 

Se um político "dispara forte e feio sobre alguém, isso tem imensa cobertura mediática", criando "um incentivo no nosso espaço público para os políticos serem mais disponíveis para o conflito e menos para o compromisso", disse.

"Da mesma forma, os políticos ajudam a moldar a cultura mediática", acrescentou.

Poiares Maduro considerou "extraordinário" que um político seja "avaliado pelo sucesso da sua política em termos de comunicação e não pela qualidade da política pública subjacente", afirmando que "à volta de 90% do comentário e do debate é sobre se uma política é bem ou mal vendida e não se é uma boa ou má política".

E deu o exemplo da discussão que teve com o líder do PS, António Costa, sobre os fundos europeus.

"As duas primeiras vezes que procurei responder ao dr. António Costa fiz isso com grande elegância", mas "só à terceira vez, quando utilizei expressões mais fortes, é que finalmente consegui ter espaço mediático", exemplificou.

Sobre as notícias, Poiares Maduro disse distinguir "muito claramente entre aquilo que é matéria factual da matéria do juízo editorial" e voltou a dar o exemplo pessoal do processo da Tecnoforma em que é arguido.

"Todos sabem que eu, tal como um comentador e uma jornalista, tiveram uma queixa de uma empresa, que é a Tecnoforma, no meu caso por eu não ter desmentido a pergunta da jornalista", processo que foi arquivado pelo Ministério Público.

No entanto, a Tecnoforma apresentou uma "queixa particular" e a "lei determina que mesmo contra a vontade do Ministério Público eu tenha sido constituído arguido", disse.

"Hoje [na quarta-feira], numa das televisões, subitamente em baixo, em última hora" surgiu "'Poiares Maduro constituído arguido no caso Tecnoforma'", acrescentou. 

"Eu, como imaginam, discordo do critério editorial", mas "não contestámos" a informação, explicou, adiantando que através da assessoria do gabinete esse meio foi informado da contextualização do processo.

O ministro salientou que "o Governo português fez aquilo que foi correto, que foi primeiro ganhar a credibilidade lá fora, ainda com custos políticos internos grandes" e que "o erro do governo grego é que deu prioridade a ter vantagens políticas internas e está a pagar um preço de perda de credibilidade externa".

Poiares Maduro fez ainda um balanço global positivo da imprensa regional.

Lusa/SOL