Quando se deu a reunificação da Alemanha, na sequência da queda do muro de Berlim e do colapso do comunismo, Margaret Thatcher e François Mitterand ficaram preocupados. A primeira-ministra britânica e o presidente francês não esqueciam que a Alemanha desencadeara duas guerras mundiais na primeira metade do século XX, sem falar na guerra franco-prussiana de 1870.
Para os tranquilizar – e também para afastar o que classificou de ‘demónios alemães’ – o então chanceler da RFA, Helmut Kohl, acedeu a uma aspiração francesa: criar uma moeda europeia que acabasse com o predomínio do marco alemão. Kohl queria garantir que a Alemanha permaneceria empenhada na integração europeia. Esta, a par da defesa conjunta contra o expansionismo soviético (NATO), tinha sido a via para a reintegração da Alemanha no grupo dos países ‘decentes’, depois de Hitler, da guerra e do holocausto.
Mas Kohl sabia que os seus compatriotas não gostavam de largar o marco. Por isso não promoveu qualquer referendo, que provavelmente perderia. A Alemanha não impôs o euro; o euro é que foi imposto à Alemanha.
O marco era uma moeda forte, pois não perdia poder de compra graças à posição ferozmente anti-inflação do banco central alemão, o Bundesbank – outra glória germânica. Como se sabe, o horror dos alemães à subida de preços radica na híper-inflação de 1923, que reduziu a pó todas as poupanças e abriu o caminho que levaria Hitler ao poder dez anos depois.
Na década de 90 do século passado, quando surgiu o euro, os alemães receavam sobretudo a indisciplina orçamental da Itália, que poderia enfraquecer essa moeda. Os políticos alemães tentaram sossegar a população lembrando que o Tratado Europeu não permitia resgatar países em risco de bancarrota. Viu-se…
Daí, ainda, a exigência alemã de um ‘pacto de estabilidade’, para impor disciplina orçamental aos países do euro – pacto que a própria Alemanha e a França violaram impunemente em 2003. Hoje o fundamentalismo orçamental alemão é a única área onde Berlim admite harmonização nas políticas económicas na Zona Euro.
Ora, não foi apenas em Portugal onde Estado, empresas e sindicatos não perceberam, ou não quiseram perceber, as exigências de já não poderem desvalorizar a sua moeda nacional para recuperarem competitividade. Aconteceu em economias maiores, como a italiana, a espanhola e a francesa, bem mais complicadas de resgatar.
Por isso não espanta que na Alemanha tenha surgido um partido contra o euro, partido que entretanto foi tomado por extremistas. Por muito que se diga que os alemães ganham com o euro (o marco teria um câmbio mais alto, desfavorável às exportações germânicas), é de perguntar até quando Merkel, que não quer ficar na história como a coveira do euro, resiste aos que, até no seu partido, pretendem abandonar a moeda única.
A debilidade do euro não tem só a ver com os países devedores.