2.O Seixal. Num discurso no Seixal António Costa desqualificou-se. Em qualquer democracia liberal consolidada, a recusa liminar em viabilizar qualquer orçamento que não seja o seu seria o suficiente para o descredibilizar como líder responsável. Mas esta declaração radical sinaliza que caso o PS não ganhe, como tudo parece indicar, e a coligação também não tenha maioria absoluta, António Costa abre a porta à esquerda para viabilizar uma solução liderada pelo segundo partido mais votado. Para tal ser possível, o PS terá de apresentar no parlamento e ao país o Governo e programa mais à esquerda desde os anos de fogo da revolução. Não sendo Tsipras, Costa poderá vir a liderar um governo Syriza 2.0 em versão lusitana.
3.Os grandes economistas. Fez mal Paulo Portas ao atacar o PS pelas suas propostas económicas terem sido feitas por um economista ‘desembarcado’ de Harvard. Mário Centeno foi formado em Harvard mas tem uma longa experiência: não é, de modo nenhum, um académico tenrinho. É um grande economista. Mais, tem razão na maioria das suas propostas relativas ao mercado de trabalho. Tem também razão ao suscitar a questão do ‘teste de meios’ relativamente a todas as prestações sociais. Muitas das suas propostas deveriam, aliás, pertencer ao almanaque de um decisor liberal do centro-direita. Mas este não é o ponto. A questão não é a qualidade dos economistas que colaboram com os governos: Luís Campos e Cunha é também uma grandíssimo economista; Fernando Teixeira do Santos nunca foi atacado por incompetência. A questão raramente é técnica: a força de um grande economista na política é, sempre, a convicção do primeiro-ministro que serve. Nenhuma das propostas boas de Mário Centeno será implementada por um governo de Costa com muleta à esquerda.