2. Votei para previnir. Vejamos primeiro aquilo que quis prevenir com o meu voto. Só dois resultados têm uma probabilidade significativa de ocorrer: uma maioria absoluta da coligação PSD/CDS ou uma maioria relativa do PS. Este segundo resultado levará à constituição de um governo PS refém da extrema-esquerda parlamentar. Por outras palavras, das eleições de 4 de outubro resultará ou um Governo de centro-direita ou um Governo ‘bem-à-esquerda’. Uma solução moderada de centro-esquerda, que só ocorreria com uma maioria absoluta do PS, parece-me quase impossível. Um Governo ‘PS-bem-à-esquerda’ será um caldo de cultura para ideais e soluções a la Syriza ou a la Corbyn, o novo líder trabalhista inglês: anti-austeridade, demais despesa, mais nacionalizações, mais Estado – tudo ideias e soluções que Portugal já experimentou a seguir a Abril e de que levou décadas a libertar-se. Será, também, uma solução instável pois coloca um partido (o PS) dependente de partidos de protesto e portanto anti-Governo. Neste cenário prevejo, portanto, retórica esquerdista, instabilidade e novas eleições para breve.
3.Votei para premiar. Não penso que a coligação PSD/CDS tenha feito um trabalho imaculado. Falhou na reforma do Estado e foi tíbia na reforma no mercado de trabalho. Foi desastrada no ensino superior. Faltou-lhe sempre um discurso de futuro que não justificasse a austeridade pela austeridade e trouxesse esperança. Mas há umas quantas coisas de que não pode ser acusada. A primeira é de, ao contrário do que muitas vezes se diz, ter ido para além do exigido pela troika: na realidade, em termos de cortes e reformas, ficou bem aquém do acordado. A segunda é a falta de convicção: O governo porfiou, contra ventos e marés, naquilo que dolorosamente achou necessário em defesa do interesse nacional. Não penso que o PS tivesse sido muito diferente. Mas existe um fato, mais do que todos, que deveria ser suficiente para merecer o reconhecimento generalizado: ao não ter aceitado ‘segurar’ o Grupo Espírito Santo deu o maior golpe de sempre no ‘capitalismo de compadrio’ que o Grupo epitomava e que asfixiava (e ainda asfixia) o desenvolvimento do país. Este, e as ondas de choque que provocou, foram um ato verdadeiramente revolucionário – dos mais significativos desde a revolução – e que julgo apenas possível pelo perfil de Pedro Passos Coelho.